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Entrevista com... André Portulez Realizada em 2009-09-17

Figura de destaque nos emblemas por onde passou nos escalões jovens, André Portulez foi mais um dos muitos jovens lusos obrigados a procurar fama e glória no estrangeiro. Encontrou-a na logínqua 2ª divisão Húngara, encantando assistências com a sua mistura de técnica e de transpiração e chamando a atenção dos media magiares e... Portugueses. As lesões ainda não lhe permitiriam dar sequência ao início promissor; mas se lhe têm faltado oportunidades para firmar uma carreira extraordinária dentro dos relvados, fora destes a história é outra: é um caso raro de um futebolista licenciado, tendo inclusivamente inserido a passagem pela Hungria no contexto do curso; e ameaça não ficar por aqui, avançando para o mestrado. Em entrevista ao ForaDeJogo.net, Portulez descreve ao pormenor as experiências que o futebol já lhe proporcionou...


Aquecimento: Perguntas generalistas

  • Não é para dar vantagem aos oponentes, mas quais os seus pontos fortes e as suas fraquezas?
  • As minhas principais características centram-se no facto de me ser indiferente jogar com o pé esquerdo ou pé direito, agressividade e capacidade de jogar de forma simples.

  • Preferências clubísticas: que emblema o faz vibrar?
  • Há dois emblemas que me dizem muito: A Naval, por ser o clube onde me iniciei e ser o clube da minha cidade; e a Académica por ser um clube que aprendi a gostar e ao qual ninguém que por lá passa lhe possa ficar indiferente.

  • Todos temos um pouco de treinador de bancada. Se fosse seleccionador nacional, que onze escolhia?
  • Quim - Bosingwa, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Miguel Veloso - Pepe, João Moutinho e Deco - Cristiano Ronaldo, Liédson e Nani.

  • Ídolos e referências, todo o jogador e adepto tem algum. Quem o inspira?
  • O meu modelo de jogador é o Essien, por ser aquele com o qual a minha maneira de jogar mais se identifica, agora... pela história de vida que todos conhecemos penso que o Cristiano Ronaldo também merece o seu destaque.

  • Algum jogo na sua carreira que se destaque, em termos individuais ou colectivos?
  • Sem dúvida o Integrál DAC - Gyirmót que marcou a minha estreia num campeonato estrangeiro, num derby, onde vi o único cartão vermelho da minha carreira e ainda fui considerado o melhor em campo pela imprensa local. Destaco este jogo por todo esse conjunto de factores que o tornaram especial.


    Futebol vs Ed. Física

  • Como é feita a gestão entre os estudos superiores e a carreira de futebolista?
  • Na minha opinião isso passa por dois factores fundamentais: se os horários dos treinos e das aulas permitirem estar nos dois sítios penso que não há dificuldade para que ambas as actividades sejam conciliáveis; se os horários dos treinos nao permitirem a presença nas aulas, terá de se abdicar depois de muito do tempo livre que estaria destinado para outras coisas para se meter a matéria em dia.

  • O que aprendeu enquanto futebolista ajuda-o na carreira de professor? E vice-versa?
  • Sim, penso que em ambos os sentidos há uma aprendizagem a ser feita e alguns dividendos a tirar disso. Por exemplo, um professor é o condutor de um grupo e como jogador sou membro desse mesmo grupo, conseguindo-me aperceber das dificuldades do seu líder e podendo dessa forma ajudá-lo. Isto é só um exemplo, pois poderíamos ficar aqui muito tempo a falar sobre isso, mas no essencial da questão sim... ajuda-me bastante!

  • Mais do que para os mais jovens, sente-se um exemplo para os outros atletas? São inúmeros os que não cumprem o 12º ano, e tão poucos a sequer tentar um curso superior...
  • Não me sinto um exemplo porque não atingi ainda títulos na minha carreira que me permitam pensar que sou um exemplo. No entanto acho que sou um caso que soube perceber que nem todos os jogadores ganham dinheiro na sua carreira para uma independência financeira vitalícia, e também entendo que tenho capacidades que podem ser aproveitadas não só para jogar futebol mas também para outras coisas, e acho também que o ecletismo nunca fez mal a ninguém. Mas se me permite deixar um conselho a todos os jovens que começaram agora a jogar futebol quero dizer-lhes que o futebol pode ser aquilo que é mais importante para eles na vida, mas que têm de ter consciência que as coisas nem sempre corre como desejaríamos, daí que tenhamos de nos precaver estudando! Até porque se repararem no meu caso, foi o facto de ter levado os estudos a sério e de ter ido estudar para o estrangeiro que me permitiu jogar no estrangeiro e estar agora aqui a dar esta entrevista....

    Início de Carreira

  • Quando e onde começou a jogar futebol?
  • Comecei a jogar nas escolas da Naval, em 1995. Iniciei-me como médio ofensivo, mas nos juniores fui adaptado a médio defensivo e assim tornei-me num jogador mais polivalente, daí que actualmente também não tenho qualquer tipo de problemas em jogar como médio interior.

  • Como se deu o salto para o Boavista? E quais foram os motivos da saída após apenas uma época no clube?
  • O salto deu-se com uma simples ida a treinos de captação do clube por minha iniciativa própria, no entanto eu já tinha sido observado anteriormente por eles só que nada se concretizou. Saí logo no final da época pura e simplesmente porque surgiu o interesse da Académica e como eu tinha também o objectivo de mais tarde frequentar a Universidade em Coimbra ajudou ao facto de me poder deslocar para mais perto de casa, para um clube de enorme prestígio! Mas o ano que passei no Boavista foi óptimo e tive a oportunidade de trabalhar com 2 excelentes treinadores: mister Amarante e o prof.João Aroso, que é hoje em dia o preparador físico do Sporting

  • O Marialvas foi o seu primeiro clube enquanto sénior. Pode contar-nos alguma coisa acerca da forma como é feita a transição de júnior para sénior? Que diferenças há a nível de treinos, ambiente no balneário e jogo?
  • A transição de júnior para sénior é muito complicada. Tudo muda, é entrar num mundo diferente, sem dúvida. É a altura em que muitos jogadores que estão habituados a ser opção regularmente deixam de o ser (comigo felizmente nao aconteceu) e isso pode levar a muitas desistências. Não havendo acompanhamento tudo se torna mais difícil, e este desacompanhamento aliado à desilusão pode levar à triste situação que referi anteriormente.

    Académica

  • Passou grande parte da formação em Coimbra... O que significa a Briosa para si?
  • Passei lá 3 anos muito bons, sempre fui muito acarinhado por toda a gente. Significa para mim gostar de um clube que tem adeptos em todo o país e que tem a ideologia do jogador/estudante, infelizmente um pouco desvanecida nos últimos anos. O historial do clube é fantástico!

  • O historial da Académica inspirou-o de alguma forma a entrar para o ensino superior? Num papel mais activo, de que forma é que o clube incentiva à carreira universitária?
  • Não foi o historial do clube que me inspirou a entrar no ensino superior, essa era uma ideia que eu já tinha, no entanto não quero deixar de referir que de facto no meu ano de caloiro a Académica me pagava o quarto em Coimbra e me pagava a propina, o que acho ser desde logo um incentivo bastante activo para qualquer estudante universitário!

  • Apesar da política actual privilegiar a aposta em Portugueses, durante anos a fio a Briosa foi dos clubes Portugueses que mais investiu no mercado sul-americano. No entretanto jogadores como Rui Miguel, Tozé Marreco e o próprio Portulez foram obrigados a emigrar para ligas menores a fim de ganhar algum prestígio. Concorda que alguma coisa está a falhar na gestão do futebol jovem da Académica?
  • Actualmente não sei como correm as coisas, pois houve mudanças, entraram caras novas e sairam algumas pessoas desde há 4 anos para cá, portanto não me compete a mim tecer comentários sobre um assunto para o qual não estou habilitado a responder.

    Hungria

  • É por demais conhecida a sua experiência na Hungria. Quer contar-nos como surgiu a ideia?
  • A ideia surgiu quando na minha primeira época de sénior eu estava a jogar no Marialvas e decidi que iria fazer ERASMUS no ano seguinte se conseguisse conciliar essa actividade com o futebol. Só me aventuraria se houvesse possibilidade de jogar.

  • Como se desenrolou o processo? Chegou em Erasmus e arranjou colocação num clube, ou já tinha a situação alinhavada antes de partir? Como foram os primeiros tempos?
  • Ora bem....por onde devo começar? Ok... Em Dezembro de 2006 comecei a pensar nesta situação e informei-me sobre os locais onde poderia fazer ERASMUS, para assim poder pesquisar sobre onde existiam equipas de 1a e 2a ligas para poder treinar à experiência. Entretanto o Facucho disse-me que ia regressar à Hungria para jogar e fui com ele, embora não tivéssemos jogado na mesma equipa. No inicio tudo foi complicado, mas contei com a ajuda de um rapaz de 17 anos que jogava nas camadas jovens do Integral DAC e que tratava de tudo o que fosse necessário: desde tradutor a reparar-me o computador, a tratar-me das papeladas necessárias, foi fantástico! Já na vida social as coisas no primeiro mês foram complicadas, pois eles ainda são um pouco fechados e as burocracias tropeçam umas nas outras, principalmente para os estrangeiros...

  • Como descreve o estado do futebol Húngaro? Algum aspecto que valha a pena importar para Portugal?
  • O futebol húngaro está em franco desenvolvimento, basta para isso constatar que o Debrecen vai disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões, e muitos jogadores começam já a jogar nos melhores campeonatos europeus. E há um aspecto que penso que seria fulcral importarmos: na 2a liga húngara pelo menos 2 jogadores húngaros com menos de 21 anos têm de estar em campo, o que faz com que os plantéis tenham de ter 6 no mínimo. Assim, defendem o jovem jogador nacional e colocam-no a competir num bom nível de exigência.

  • Foi difícil impor a sua capacidade técnica num estilo muito mais físico? O seu jogo evoluiu em algum aspecto?
  • Não foi dificil impôr o meu jogo porque eu também sou agressivo daí que para mim isso não tenha realmente sido um problema. Sim, evolui porque experimentei uma realidade nova, daí que quer em termos tácticos quer em termos técnicos e psicológicos tive de me saber adaptar a uma situação nova.


  • Fora dos relvados, como é vivido o futebol na Hungria a nível de publico e imprensa? Encontram-se alguns paralelismos ou é totalmente diferente?
  • Tirando os clubes grandes, onde acho que Portugal leva uma incomparável vantagem ao nível de dimensão, os clubes médios têm bastantes semelhanças ao nível de massa adepta e de projecção na imprensa.

  • A Hungria lembra-se do Portulez? Já recebeu contactos para regressar?
  • Sim, a Hungria lembra-se de mim e já recebi contactos para regressar, no entanto tudo esbarrou em aspectos financeiros. Tenho também vários amigos que contactam diariamente comigo e que me expressam a vontade deles em ter-me de volta a jogar lá na liga principal.

  • A Selecção encontra-se no meio de um duplo embate frente à Hungria, tendo vencido o primeiro encontro com alguma dificuldade. Como um conhecedor de ambos os estilos, como viu a vitória por 1-0 e o que prevê para o segundo jogo?
  • Acho que Portugal venceu justamente e que vai vencer outra vez. Os húngaros a nível psicológico pareceu-me que jogaram com um complexo de inferioridade em relação a nós, não acreditando em si mesmos. Achei inacreditável que com o resultado desfavorável eles defendiam sempre atrás da linha de meio campo com 11 jogadores, não tiveram o mínimo de ambição, não criaram uma única situação de perigo em jogada de lance corrido. Em Portugal a história não será muito diferente, daí que eu ache que se Portugal tiver bom poder concretizador até poderá obter uma vantagem mais dilatada do que em Budapeste.

    Valonguense

  • Regressou a Portugal com outro mediatismo. Recebeu propostas de clubes dos escalões profissionais? De que forma é que a licenciatura condicionou as suas escolhas?
  • Recebi propostas de clubes de escalões profissionais e do estangeiro, no entanto, uma lesão com que vim da Hungria aliado ao facto de me faltar o estágio pedagógico para terminar a licenciatura levou-me a tomar esta opção que, em termos de carreira futebolística não foi naturalmente a melhor. No entanto gostava de realçar que fui sempre bem tratado pelas gentes do Valonguense.

    Tocha

  • A passagem pelo Tocha foi uma opção de recurso? Como surgiu a oportunidade?
  • Em Agosto lesionei-me gravemente num período de experiência em Salamanca e quando fiquei apto para competir em Janeiro surgiu o interesse do Tocha e eu aceitei o desafio.

  • Ironicamente passou incólume pelo físico futebol Húngaro para começar a acumular lesões em Portugal. É assim tão duro jogar nos campeonatos semi-profissionais?
  • Os campeonatos semi-profissionais portugueses são campeonatos duros, no entanto parece-me que a qualidade também existe. As lesões podem acontecer a qualquer um e em qualquer momento da carreira de um futebolista.

    Período de descontos: Conclusões

  • Já esteve na Hungria e em entrevista à Rádio Renascença relatou duas experiências esta época em clubes estrangeiros. Jogar noutros campeonatos é uma preferência?
  • Jogar noutros campeonatos é uma ambição que tenho, mas tem de ser conjugado o aspecto financeiro para que o desafio seja suficientemente aliciante. Continuo a querer passar por experiências novas, pois a vida com desafios que não sejam monótonos torna-se muito mais interessante e eu quero desfrutar dela dessa forma.

  • Apesar de todas as suas distinções nas camadas jovens a verdade é que só captou o interesse da imprensa quando emigrou para um campeonato exótico. Sintomático do estado do futebol Português?
  • Não me parece que isso seja sintomático do estado do futebol português, apenas vejo isso por um prisma de naturalidade, pois a minha história de facto acho que foi de todo interessante, ir para fora para estudar e acabar por jogar também, conseguir conciliar futebol e ensino superior mesmo num país estrangeiro e com vários obstáculos a ultrapassar.

  • Porque é que acha que os clubes apostam tanto em jogadores estrangeiros?
  • Naturalmente seria pelo facto de os estrangeiros virem acrescentar qualidade, no entanto, em alguns casos acho que tal se verifica somente por interesses económicos, interesses económicos estes que muitas vezes não são tão claros quanto isso.

  • Sonha em regressar à Académica?
  • Qualquer jogador que passe pela Académica pensa em regressar. Como já referi é um clube que deixa marca, portanto, a resposta é afirmativa!

  • Com base na sua carreira e nas várias equipas por onde passou é capaz de eleger um onze formado com companheiros de equipa, actuais ou no passado?

  • Guarda-Redes Barroca(Académica)
    Defesa direitoGrosso (Desp.Aves)
    Defesa centralGonçalo (Santa Clara)
    Defesa centralMachado (Rec.Libolo)
    Defesa esquerdoVitor Vinha (Salamina)
    Médio Centro Imrik Lászlo(Vasas Budapest)
    Médio Centro Carlos Miguel (Boavista)
    Médio Centro Portulez  
    AvançadoAttila Korsos(retirado, ex-internacional húngaro)
    AvançadoTozé Marreco (Servette)
    AvançadoHerczeg Miklos(retirado, ex-internacional húngaro)

  • E em relação a treinadores, destaca algum?
  • Prof. Tó Miranda, foi meu treinador nos juniores da Académica e marcou-me muito, tem uma competência inatacável e métodos de trabalho com os quais me identifico na plenitude.

  • A imprensa em geral aponta o dedo aos dirigentes como sendo o pior que há no futebol. Já os adeptos normalmente viram-se mais para os empresários. Finalmente, os jogadores e treinadores costumam muitas vezes acusar a imprensa de criar mitos ou derrubar imagens de equipas. Com a sua relação especial com a imprensa e a sua experiência menos convencional, o que é que o Portulez pensa acerca deste assunto?
  • Penso que o futebol hoje em dia é uma actividade onde muitas vezes não há qualquer espécie de ética e onde muita gente é atropelada. Mas uma coisa também é certa: imprensa, jogadores, treinadores e empresários, só para falar daqueles que referiu, todos eles são necessários para que o futebol vá progredindo, porque se há alguns a fazerem mal o seu trabalho também há quem o faça bem e isso é que contribui para a evolução do jogo. Se só houvesse consenso não haveria lugar ao progresso. Sou também obrigado a concordar que todo este sistema se tornou mais complexo do que há 14 anos quando comecei a jogar, mas isso será sempre assim, existirão sempre mudanças, umas para melhor outras para pior... Cada elemento te de se preocupar em fazer moralmente bem a sua parte e assim acredito que tudo ficará melhor.

  • Com todas as experiências que já viveu, como encara o futebol hoje em dia?
  • Encaro o futebol da mesma forma que encaro há muitos anos: com o prazer de jogar e a vontade de trabalhar para atingir patamares mais elevados e conseguir atingir sempre objectivos mais altos. Nunca fico contente, tento sempre propôr-me a novos desafios.

  • Tem apenas 23 anos e muito para dar ao futebol. Olhando para trás, que época é que mais destaca? E para o futuro, até onde pode chegar o Portulez doutor e o Portulez jogador?
  • A época que joguei na Hungria foi a mais marcante pelas razões que fui apresentando ao longo da entrevista. Em relação ao futuro neste momento só penso em trabalhar à espera de uma oportunidade para jogar a um nível superior, o Portulez professor para já vai tirar o mestrado e continuar a dar as suas aulas. Depois logo se vê...

    O ForaDeJogo.net agradece a fantástica disponibilidade de Portulez e deseja-lhe um rápido regresso aos relvados. No entretanto gostávamos de convidar os nossos utilizadores a deliciarem-se com uma colectânia de grandes momentos do jogador em solo Húngaro, para dar a conhecer toda a sua classe e qualidade técnica. Aviso: as execuções que vai ver podem provocar aplausos e olés...