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Liga das oportunidades por Jorge Carneiro em 2009-03-10

Em muitos aspectos 2008/2009 tem sido uma época como outra qualquer: há 3 denominados grandes; toda a gente insulta e pressiona os homens do apito; chegaram mais contentores de artistas de Vera Cruz a substituir os outros que regressaram; novas estrelas foram reveladas enquanto outras desiludiram; o campeonato continua a ter apenas 16 equipas em favor de uma competição desinteressante e que atrapalha as restantes; e o Estrela não paga salários aos seus profissionais. Felizmente, existe pelo menos um aspecto em que esta edição destoa das demais: A 10 jornadas do final do campeonato e tendo os clubes definido o plantel com que irão abordar o restante da competição, continua a sobrar especulação quanto à classificação final, com nenhum emblema a ter ainda o seu destino claramente traçado. Basta lembrar que neste mesmo ponto da temporada passada o FC Porto já caminhava adiantadamente rumo ao título, explanando classe jornada após jornada; enquanto cá atrás o Leiria aceitava o destino traçado e começava a dispensar atletas para reduzir os encargos salariais e assim ganhar margem de manobra para melhor planificar o regresso à Honra.

A luta pelo título está ao rubro, embora um tanto ao quanto nivelada por baixo. Porto e Benfica alternam a ocupação do trono que já pertenceu ao surpreendente Leixões, o Sporting mantém-se nas imediações e ameaça a cada jornada aproximar-se um degrau mais. Nenhuma destas tem demonstrado a força e um regularidade de um campeão, nem tão-pouco os seus planteis convencem a colocá-los num patamar de favoritismo; mas em momentos distintos da época todas já demonstraram argumentos para um ataque sólido ao campeonato.

O líder actual é um FC Porto que se apresenta com o seu colectivo menos consistente dos últimos anos; centrais de betão, defesas laterais assim-assim (não amigos, lamento mas ninguém me tira da ideia que Cissokho ainda tem muuuuuito que crescer); um meio-campo onde um Fernando aplicado mas que ainda não constrói e um Comandante em baixo de forma tornam Raúl Meireles na trave mestra; e um ataque que apesar do bom registo é bastante irregular e vive da cabeça de Cebola e das arrancadas demolidoras de Hulk - Lisandro trabalha imenso, mas neste sistema de jogo voltado para o contra-ataque não tem o mesmo número de oportunidades nem a eficácia do ano anterior. Os azuis e brancos são a hipótese mais credível para receber as faixas no final, mas basta uma lesão ou uma oscilação de forma para verem esse estatuto ameaçado, uma vez que o seu estilo depende fortemente das características dos executantes actuais - e a prova maior disso foi que a equipa só começou a carburar quando Hulk se fixou no onze e Rodriguez melhorou os seus índices físicos.

Segue-se o Benfica, o maior vendedor de sonhos e promessas nas duas últimas décadas e que mal-grado a posição actual até poderá estar a construir as bases de uma equipa campeã, mas dificilmente conseguirá conquistar o ceptro já nesta edição. Apresenta o habitual plantel desiquilibrado, com soluções em demasia para alguns lugares e sem nenhum dono evidente noutros; mas ao contrário do actual líder não soube aproveitar o mercado de Inverno para suprir as lacunas expostas; e o modelo de jogo actual peca por ser excessivamente cauteloso, com dois médios de contenção pura, um central adaptado a lateral e um médio centro adaptado a extremo. Tivessem os restantes homens da frente um rendimento que compensasse este handicap e a estratégia até faria todo o sentido, mas como é sabido nem Reyes e Aimar têm estado à altura dos seus vencimentos, nem Suazo marca os golos que se desejaria, e fogachos à parte Di Maria é mesmo uma das desilusões da época. Assim, o que acontece o Benfica tenta jogar pelos flancos, mas os seus alas não conseguem fechar devidamente o seu flanco em situações defensivas; e na progressão ofensiva os médios não conseguem acompanhar os alas, deixando-os muitas vezes sozinhos e sem espaço para enfrentar 2 ou mais adversários. Para além disso o modelo exige ao meio-campo um dinamismo, fluidez no passe e ocupação de espaços que os intérpretes actuais estão longe de conseguir executar; e com o actual desdobramento lento e desorganizado a equipa sente dificuldades naturais para importunar equipas bem fechadas - que é algo que não falta na Liga Sagres.

O Sporting é a desilusão de entre os candidatos ao título, por ter sido o emblema que soube manter todas as suas peças-chave e ainda reforçar as suas fileiras com opções de qualidade, e por possuir um sistema táctico baseado em futebol curto e rendilhado que funciona com os elementos que compõem o plantel. No entanto elementos como Grimi, Abel e Romagnoli não conseguiram manter o mesmo nível exibicional que tinham patenteado na época anterior, Vukcevic criou uma novela que atrasou a sua integração na equipa, e nem Caneira nem especialmente Rochemback foram o incremento de qualidade que se esperava. Some-se a \"Liedsondependência\" no ataque (preocupa constatar que os anos não estão a tornar o baiano mais jovem) e o apagamento de Veloso (ora por lesão, ora por necessidade de ocupar a lateral esquerda), e verifica-se que a qualidade de jogo até diminuiu em relação ao ano anterior, com lacunas evidentes essencialmente a nível da profundidade de jogo. Os laterais ou não sobem como desejado, ou quando o fazem o meio campo vê-se incapaz de lhes colocar a bola; e para além disso os médios centro nem sempre se conseguem desdobrar do modo mais acertado em terrenos adversários; e quando o fazem a bola também não lhes é devidamente endossada - e daí resulta que o Sporting pareça uma equipa com muito espaço entre médios e o duo de ataque. Assim, o sucesso desta equipa estará assim intimamente ligado à capacidade dos seus elementos de ultrapassarem o seu mau momento individual e atingirem um rendimento condigno com as suas capacidades.

Nesta luta pelo lugar cimeiro há ainda espaço para três outsiders, equipas com candidaturas muito sólidas à Taça UEFA mas que dado o menor fulgor dos três maiores emblemas em conjunção com as capacidades demonstradas pelas suas equipas, podem ainda vir a intrometer-se numa luta que não é à partida a sua. De qualquer modo terão de guerrear entre si para conquistar as duas vagas restantes de acesso às competições Europeias.

A primeira é a super-surpresa Leixões. Salvos da despromoção na última jornada da época anterior, os Bebés do Mar montaram uma equipa de valor duvidoso e cuja pré-época paupérrima parecia indiciar mais um ano de muito sofrimento. As perspectivas não melhoraram quando a estrela Jorge Gonçalves foi transferida logo após a segunda jornada e a grande esperança para esta edição, Chumbinho, se viu impedido de alinhar pelo menos durante a primeira metade da época; e no entanto um lote de contratações tardias vieram remendar a maioria dos pontos fracos identificados durante o Verão e projectar o clube de Matosinhos para o trono do campeonato. Alicerçado na segurança de Beto - o MVP desta edição - e praticando um futebol de ocupação perfeita de espaços combinado com um contra-golpe absolutamente letal e um entrosamento e uma união que só pode ter o cunho de José Mota, ocuparam durante largas semanas a primeira posição do campeonato. É um facto que muito dificilmente conseguirão manter o nível exibicional e a eficácia nas semanas vindouras, mas o mesmo se dizia antes da primeira jornada.

À semelhança de Porto e Benfica, o Nacional é mais um candidato desiquilibrado. Tem laterais seguras e experientes, o artilheiro-mor da competição e revelou ainda uma nova pérola para organizar o seu meio campo já de si consistente, só que... e se Nené se lesiona ou aceita uma das propostas provenientes do mercado Russo? A segunda linha de avançados não se tem mostrado especialmente produtiva, não sendo fácil confiar em que se encontrem à altura do desafio. Ademais, a dupla de centrais é jovem e sem experiência de futebol Europeu, ainda não demonstrando a estabilidade e eficácia desejadas. Assim, o sucesso do Nacional chegará até onde Nené conseguir carregar...

O terceiro nome é a equipa mais espectacular desta edição: com a queda do Boavista, o Braga é agora visto pela generalidade dos adeptos como o 4º grande do futebol nacional, e faz por merecer esse estatuto somando exibições arrasadoras jornada após jornada. O plantel também está quase ao nível de um dos três grandes, com várias opções de grande renome para as posições mais ofensivas, incluindo no banco de suplentes. Acresce que João Pereira e Alan formam a melhor ala direita deste campeonato, entendendo-se às mil maravilhas na tarefa de perfurar as barreiras colocadas pelos oponentes; Eduardo parece o mais sólido candidato à titularidade da baliza da Selecção; Renteria renasceu e é um dos mais perigosos avançados a actuar na Europa, e há ainda a geometria táctica de Luís Aguiar, o virtuosismo de Mossoró, as mudanças de ritmo de César Peixoto e a tremenda eficácia de Meyong. O autêntico dream-team. Todo este poderio assenta em Vandinho, um trinco que dá o seu melhor para equilibrar a equipa; mas mesmo sendo bem melhor como primeiro construtor do que como filtro é também a melhor alternativa existente para ocupar a posição. E é por aqui que se explica a carreira menos brilhante do arsenalistas no campeonato (em contraponto com toda a glória alcançada na Europa), faltando opções defensivas à altura dos seus parceiros da frente. Junte-se doses generosas de infelicidade e explica-se assim o actual 6º lugar. Mas poucos, muito poucos acreditam que esta seja a sua posição final.

Marítimo e Vitória de Guimarães são o par que se segue, ambas equipas que claramente perderam qualidade em relação ao ano transacto e a quem falta agora uma série de vitórias que injecte alguma confiança. Ambas ainda podem intrometer-se na luta por objectivos Europeus, mas ambas terão também de melhorar diversos aspectos do seu jogo e solucionar as terríveis perdas que sofreram entre uma época e a actual. No entretanto vão praticando um futebol agradável de assistir, embora sem grande segurança ou eficácia.

Os insulares, uma das equipas mais experientes e habituadas à Europa, falharam redondamente na planificação da temporada e executam agora o seu plano B, que é como quem diz, encontram-se em processo de lançamento às feras de jovens provenientes da formação de reservas. Só que ao contrário das restantes contratações, Djalma, Baba Diawara, Ytalo, Vítor Júnior e Fernando têm conseguido ter sucesso e superar as expectativas mais optimistas, assumindo-se como as principais figuras de um plantel onde ainda num passado recente Bruno e Marcinho eram referências e estrelas. Assim, com o abaixamento de forma dos elementos mais experientes resta ao Marítimo procurar ajudar à evolução dos seus jovens talentos e planear a temporada vindoura em função destes, tendo também em mente que a UEFA não é de todo um sonho inatingível - mas apenas se as equipas na dianteira fraquejarem.

Na cidade-berço, o Vitória procurou manter as suas principais peças e permitiu apenas a saída do prodígio Geromel, à qual se juntou a partida forçada de Alan devido a motivos políticos. Os responsáveis não podiam prever que Sereno, o outro central que tinha impressionado em 07/08, se iria lesionar com grande gravidade durante a pré-época e abandonar assim o centro da defesa para uma dupla muito pouco produtiva: o macio Moreno, e o lento e duro Gregory. Com um ponto fraco tão crítico a confiança do plantel desmoronou-se; apesar de os nomes e de o modelo de jogo serem os mesmos, os posicionamentos passaram a ser feitos mais a medo; as trocas de bola deixaram de ser fluídas; e os golos deixaram de aparecer. Os adeptos viraram as costas ao clube: este Vitória actual tem muito pouco a ver com o da época transacta. A esperança reside agora nos atletas contratados na sequência do forte investimento no mercado de Inverno, sendo certo que a qualidade existe e abunda e basta apenas conseguir canalizá-la para dentro do terreno de jogo. Nuno Assis desempenhará um papel fulcral neste processo, e só precisa de uma equipa a acompanhá-lo.

Entre as equipas que actualmente se encontram tranquilas mas sem outro objectivo final que não assegurar essa mesma tranquilidade contam-se Estrela da Amadora, Académica e Naval. Os tricolores são o clube com menor folha salarial da liga, com uma despesa mensal a rondar o zero; e mesmo assim não há fome ou falta de vergonha do seu presidente que impeça os seus jogadores de ir amealhando alguns pontinhos extra a cada jornada que passa. Jogam um futebol feio, curto e muito apoiado que normalmente só dura até à linha de meio-campo (a partir daí é com a inspiração individual de quem levar a bola) onde Silvestre Varela é a estrela da companhia e simultaneamente quase todo o poder ofensivo da equipa; Nuno André Coelho e Fernando Alexandre são as maiores revelações; Carreira e Marco Paulo representam a mística Estrelista; enquanto Nélson e Vidigal são importantes vozes de experiência. Mas não se pode olvidar André Marques, Filipe Mendes, Hugo Gomes, Moreno, Pedroso, Mustafá, Ney, Goianira, Celestino, Jardel, Anselmo, Rui Varela, Pedro Pereira e N\'Diaye; exemplos máximos do que um jogador profissional pode e deve ser. Sem objectivos e sem futuro à vista - é 99% certo que o Estrela não reunirá as condições necessárias para se inscrever na próxima época - pelo menos a Reboleira poderá orgulhar-se de uma despedida tranquila e em grande brio.

A Académica mantém-se uma equipa de contrastes, capaz de praticar um futebol agradável numa partida ou outra mas mostrando-se insossa na maioria das restantes. Dispõem-se normalmente em 4-4-2 em losango, um sistema que por si só é quase sempre eficaz a defender, mas que exige uma imensa organização e cultura táctica para atacar de forma fluída e eficiente. Em rigor não faltam aos estudantes opções com capacidade para o fazer, mas não com a consistência necessária, dado que as laterais são apenas razoáveis e o sector intermediário alberga muita gente jovem e ainda em maturação. E quando as bolas de facto chegam em condições à área, falta também quem consiga aplicar o encosto final... Apesar de tudo, nota positiva pela coragem de apostar na juventude: Éder, Licá, Saleiro, Cris, Pedrinho e Gonçalo estão a ter grandes oportunidades que dificilmente teriam em qualquer outra equipa, embora nenhum se tenha afirmado até agora como um valor tão seguro como foi, por exemplo, Zé Castro. Mas ainda há espaço para surpresas...

Após um ano em que apostou e recuperou uma série de jogadores lusitanos, a Naval encontra-se actualmente voltada para outros mercados. Os únicos Portugueses que aparecem regularmente no onze são Carlitos na lateral direita, Davide na organização de jogo ou fazendo companhia a Marinho numa das alas; e todos eles permanências da temporada transacta. A equipa mantém o mesmo modelo de jogo, um 4-3-3 a povoar o meio-campo com desdobramentos rápidos a fim de surpreender adversários, mas os executantes já não são os mesmos e esta estratégia provavelmente não é a melhor solução para tirar partido das suas características. Huaw é o novo vértice ofensivo do triângulo de meio-campo e com isso empurrou Davide de regresso a uma das alas, mas com esta alteração a Naval perdeu imprevisibilidade e até fantasia, apesar do Francês ser um jogador fisica e técnicamente superior ao extremo ex-Braga. A lesão do goleador Marcelinho e uma menor propensão ofensiva desta nova geração de defesas-laterais são outros obstáculos a uma maior produtividade por parte da versão 2008/2009 dos figueirenses, um aspecto em que o pequeno extremo Marinho continua a prestar um contributo importante.

A luta pela manutenção está também bastante animada - com um toque de desespero à mistura - estando quatro equipas em igualdade pontual a segurar a lanterna vermelha mais o Trofense a uma curta distância. São 5 candidatos para 2 vagas, aos quais se poderão ainda juntar uma ou outra equipa da camada imediatamente superior, em caso de quebra.

Os estreantes no escalão maior começaram por apresentar-se num 4-3-3 pouco clarividente em que o meio-campo não era nem suficientemente seguro, nem suficientemente criativo, e com um ataque absolutamente nulo. Em Janeiro operaram um par de retoques no plantel e, enquanto Hugo Leal trouxe a clarividência que faltava ao miolo, Chad e Dagil incutiram um poder ofensivo que não existia anteriormente. Hoje os trofenses variam entre o 4-3-3 bem aberto e o 4-4-2, ambos com avançados móveis de forma a assumir o contra-ataque como arma ofensiva preferencial; e parecem uma equipa em recuperação anímica com correspondentes consequências a nível de resultados.

Igualmente em recuperação parece a equipa de Belém, que conseguiu a proeza de desbaratar uma equipa vencedora e substitui-la por uma outra digna da 3ª divisão, em apenas 3 meses. O Belenenses entrou na liga inferiorizado em todos os aspectos possíveis, fruto de uma aposta desastrosa em jogadores de capacidade mais do que duvidosa - sendo que seria curioso verificar quem avaliou as contratações no seio da direcção, tantos foram os fracassos. O maior mérito de Jaime Pacheco terá sido inclusivamente a coragem de apontar esse facto e de seguida dispensar todos os jogadores sem capacidade de jogar a este nível competitivo a fim de darem lugar a atletas com valia digna do emblema. Hoje em dia o Belenenses tem uma equipa base muito dinâmica, disposta num 4-4-2 em que o meio-campo sabe avançar para atacar violentamente e recuperar a fim de tapar todos os caminhos para a sua baliza; tem finalmente Marcelo Faria a afirmar-se como referência de área e Saulo ou Wender como muletas móveis à espreita de espaços; e tem um lateral esquerdo que conhece as suas funções na perfeição. Por outro lado o centro da defesa ainda precisará de ajustes a fim de garantir a segurança indispensável para que os outros sectores possam atingir a plenitude das suas potencialidades, mas neste sector Ávalos é uma referência e uma garantia de qualidade que simplesmente não existia na primeira fase da época. Resta portanto encontrar de entre os vários candidatos o parceiro ideal para complementar as características do Argentino. De resto, resta apenas frisar que dadas as melhorias exibicionais e de resultados registadas, o Belenenses dificilmente se manterá neste grupo de equipas por muito tempo.

Já o Paços de Ferreira continua mergulhado nos últimos lugares, sempre em busca da fórmula que em 2007 levou o emblema à Europa mas até ver sem sucesso. Mantém a atitude guerreira e o futebol físico e de enorme entreajuda entre colegas e sectores, mantém a velocidade de transições que lhe permite colocar a bola nos homens da frente em 2 ou 3 toques e mantém a massa associativa unida em redor da equipa; mas perdeu toda a estabilidade defensiva que fazia das balizas da Mata Real um autêntico rochedo, inacessível para todos os visitantes. Nos dias que correm os castores detêm a pior defesa de todos os campeonatos nacionais, e só o facto da produtividade ofensiva estar bem ao nível das equipas que lutam pela Europa - mesmo com a gravíssima lesão de William Arthur, o goleador máximo - mantém a equipa na luta ao invés de prematuramente condenados. Já na época transacta se havia verificado o mesmo problema a par de uma enorme ineficácia ofensiva, sendo que na altura pelo menos havia um extraordinário Peçanha a procurar disfarçar as falhas; no Verão tomaram-se providências no sentido de reformular o sector ofensivo, mas pouco se investiu no reforço da muralha defensiva. Apesar dos esforços da direcção do clube, a partida do guarda-redes Brasileiro não foi adequadamente suprida (Bruno Conceição e Cássio têm cometido um número alarmante de falhas) o que, em conjunto com o mesmo elenco catastrófico na defesa, tem atirado o Paços para a actual situação alarmante. O mercado de Inverno trouxe novas soluções para a retaguarda, e visto que os anteriores titulares fracassaram, a permanência ou não do Paços está agora 100% dependente do rendimento das novas caras. Uma pressão que ninguém deseja.

Em Vila do Conde vivem-se igualmente dias difíceis. Desde o início de época que o 4-4-2 de João Eusébio demonstrou o mesmo de rendimento de um 4-4-0, com nenhuma das soluções ofensivas experimentadas a conseguir introduzir de forma regular a bola na baliza adversária, pese embora o meio campo (pouco elástico) conseguisse dosear em doses equilibradas contenção e lançamento de jogo. Partiu o técnico, partiram muitos dos avançados nos quais tinha apostado, e chegou o treinador semi-residente Carlos Brito acompanhado de toda uma nova linha ofensiva, quiçá um pouco jovem demais para um emblema em perigo de despromoção. O novo técnico alterou o esquema para o 4-5-1, conseguindo de uma vez só dotar a intermediária de ainda maior preenchimento de espaços e de maior facilidade no desdobramento para o ataque, e retirar o peso da organização de jogo exclusivamente dos ombros de Livramento e Tarantini. Actualmente Candeias e Coentrão trazem a fantasia, velocidade e capacidade de explosão a uma linha avançada onde o irrequieto Yazalde é agora a figura de referência; e do rendimento deste trio de jovens em maturação dependerá o sucesso dos Vila-Condenses. De resto, Paiva tem-se mostrado um guarda-redes regular; Gaspar e Bruno Mendes formam uma dupla tão poderosa nas alturas quanto vulnerável pelo chão; e nas laterais há uma mescla entre a experiência de Rogério Matias e a irreverência da surpresa Miguel Lopes. Não falta qualidade ao Rio Ave, faltam isso sim tranquilidade, golos.. e pontos.

Por último, e em último, há que registar o estranho caso do Vitória de Setúbal. Nos últimos 5 anos os sadinos conquistaram uma taça de Portugal, atingiram uma outra vez a final da competição, conquistaram a primeira edição da Taça da Liga e competiram em três edições da Taça UEFA. Aparentemente estes factos não bastaram para tornar o clube rentável ou sequer atractivo, e consequentemente o emblema histórico vê-se actualmente à deriva directiva e sem qualquer manifestação de interesse em tomar a mão ao leme. Talvez por isso ou não, a equipa de futebol encontra-se igualmente à deriva e sem grandes perspectivas de salvação; e um plantel em tudo semelhante ao que o ano passado encantou Portugal vê-se agora sem soluções para enfrentar a situação catastrófica em que se encontra. Nada fazia prever este fracasso, dado que foram poucas as saídas relevantes e as soluções encontradas pareciam ter todo o potencial de fazer esquecer os antecessores: Eduardo foi rendido pelo conceituado Bruno Vale; Pitbull teve em Mateus o seu sucessor; André Marques ocupou a vaga deixada por Jorginho e Leandro Lima veio de certa forma tentar ocupar o espaço que fora de Matheus. Nada resultou: a baliza tem registado uma sucessão de fracassos e consequentes substituições; a defesa tem exibido uma debilidade confrangedora; o meio campo defensivo tem estado bastante bem, mas o ofensivo mostra-se pouco lúcido e muito complicativo; o ataque tem demonstrado uma ineficácia e incompetência apenas comparável à da defesa. Para cúmulo, Bruno Gama cresceu muito enquanto jogador de uma temporada para a outra, mas nem o facto de ser sucessivamente o melhor setubalense em campo convenceu Daúto Faquirá a dar-lhe um lugar no onze durante o seu reinado e só agora, com Carlos Cardoso e uma equipa desmotivada e em crise anímica, tem o espaço que necessitava. Será já demasiado tarde? Resta a fé e o recordar da história recente: em 06/07, também com Carlos Cardoso à frente da equipa a situação era absolutamente desesperante, talvez até mais do que a actual. Os sadinos não se conformaram e, demonstrando uma vontade imensa que se sobrepôs à gritante escassez de soluções, foi com muito sofrimento que o Vitória conquistou a permanência na última jornada, num desafio em que Ayew assinalou a sua despedida do futebol profissional com um golo precioso.