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Olhando para Nuestros Hermanos por João Antunes em 2011-10-20

Desde o final do ciclo de Vitor Baía e dos bons – e velhos – tempos de Ricardo que a nação se queixa da falta de um guarda-redes com "G" grande. Eduardo brilhou no Mundial da África do Sul em 2010, mas mesmo aí todos fomos capazes de avaliá-lo como um bom guarda-redes, e apenas isso. No entanto, se pela idade e pela qualidade demonstrada nesse torneio Eduardo solicitava um clube não mais ambicioso que o Génova mas pelo menos mais sólido e credível, a má época em Itália e uma dúbia transferência para o Benfica com o objectivo de jogar regularmente mudaram o sentido da recta que personificava a carreira deste guarda-redes, até então claramente ascendente. Rui Patrício tem segurado as redes nacionais, não se podendo apontar até agora erros; é a quem auguro a titularidade futura e o único no rol de jovens guarda-redes a quem atribuo um potencial lugar entre os guarda-redes de top mundial no futuro – é titular do Sporting desde os 19 anos, alguém se lembra de Casillas e Van Der Saar com estas idades? Há ainda Quim, que apesar de uma carreira brilhante a nível nacional nunca foi durante muito tempo dono da baliza da nossa principal selecção nem tão pouco foi considerado pela crítica um guarda-redes de nível mundial. Beto continua um eterno suplente na equipa das quinas, acumulando convocatórias que não se traduzem em minutos de utilização; e pelo meio houve ainda Daniel Fernandes, Paulo Santos, Ventura, Hilário e Moreira, todos com qualidade mas, por motivos diversos, sem competência para o estatuto de número 1 nacional.

Olhando um pouco à nossa volta, procurando motivos – que certamente os há (!) – para o facto de não termos há alguns anos um guarda-redes ao nível de outros sectores da nossa equipa, encontrei outros exemplos que não nos fazem sentir únicos, como Inglaterra ou França; sendo que ainda assim nestes páises o panorama não é tão gritante como em Portugal. Mas vejo a Espanha e assusto-me; não seria necessário um exemplo tão forte, tão acentuado! Nos dias que correm, o seleccionador espanhol tem um grave problema quando constrói a convocatória. Sejamos claros: possui o guarda-redes titular do Real Madrid, do Barcelona, do Liverpool, do Manchester United, do Atlético de Madrid, do Villarreal e do Sevilha. Tem por onde escolher! Continuando a mexer nesta ferida chego a factores comuns nos principais guarda-redes espanhóis: todos foram apostas ao mais alto nível quando ainda eram bastante jovens; e por alto nível entenda-se neste caso clubes que lutam por títulos nacionais ou internacionais, onde infelizmente em Portugal apenas temos 3. Uns saíram-se logo bem, outros foram melhorando com o tempo (onde do ponto de vista nacional me parece estar inserido Rui Patrício), outros falharam nesse primeiro momento mas ficaram mais fortes e apareceram em grande algum tempo depois. O que é certo é que hoje são guarda-redes de top mundial, porque a qualidade, o talento, todo um conjunto de potencialidades estavam lá. Poder-me-ão apontar um conjunto de guarda-redes, portugueses e/ou estrangeiros, que foram lançados bastante jovens e não mais ouvimos falar deles, é certo. Mas eu pergunto: e quantos foram lançados em idade bem adulta já com alguma experiência, eventualmente aos 26 ou 27 anos, e foram guarda-redes de top mundial? Já agora, com que idade foi lanlçado o nosso mais recente guarda-redes de top mundial, Vitor Baía?

Não podemos, por outro lado, em relação a Espanha apontar questões demográficas que tenham implicações morfológicas nas populações e consequentemente nos jogadores de futebol; afinal eles moram aqui ao lado e são fisicamente iguais a nós. E são campeões do Mundo e da Europa em clubes e selecções. Mas não o foram sempre: demoraram, foi o preço da aposta, foi uma espera que simbolizou um investimento. As questões passam mesmo por decisões dos dirigentes desportivos nacionais – sejam eles treinadores, directores, presidentes, empresários – que tardam em apostar no jovem (ou muito jovem) jogador português – neste caso do guarda-redes – e continuam assim a colocar barreiras cada vez maiores à sua consolidação no mundo do futebol como um produto top.