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A cronometragem do futebol "mata" o espectáculo? por João Coutinho em 2011-11-22

Tendo passado por diversas modalidades como praticante, treinador ou espectador, às vezes ponho-me a reflectir sobre algumas das regras das mesmas.

Um bom exemplo foi o que aconteceu com o voleibol, que eliminou quase todos os pontos de conflito na interpretação das regras, como por exemplo a recepção do serviço feita com os dedos, a defesa baixa com os pés, o ir buscar a bola no outro campo, etc. Mas talvez a mais relevante foi a do serviço, passando todos a contar como pontos ganhos ou perdidos. Daí os serviços espectaculares a que assistimos, pois tudo se arrisca no mesmo.

Hoje dá gosto ver na televisão um jogo de voleibol. Tem ritmo, espectáculo e surpreende os espectadores. Enquanto isso, no futebol as coisas são muito complicadas: tirando o atraso para o guarda-redes feito por um colega, que mais mudou para melhorar a competição e o espectáculo? Quase nada ou nada mesmo. Continuamos a ver simulações de lesões, paragens constantes do jogo. É verdade que há ligas onde isso não acontece. Mas para defesa do próprio futebol, nada melhor do que obrigar a nivelar por cima, isto é, impor regras que expliquem aos “prevaricadores” que tudo o que fizerem não terá qualquer importância porque as regras prevêem essas “palhaçadas” e dão-lhes desconto.

Assim, vou dar alguns exemplos concretos: a cronometragem do futebol deveria ser de duas partes de 30 minutos cada, cronómetro fechado. Quer isto dizer que cada vez que o jogo fosse interrompido pelo árbitro, um cronometrista (como no basquetebol, hóquei em patins) interromperia a contagem de tempo, mas feita à vista de todos, com um cronómetro para o público, jornalistas e jogadores. Deixávamos de ouvir aquelas “doutas” previsões de quanto tempo de desconto vai dar o árbitro, sabendo-se que muitas vezes o tempo jogado nessa fase é pura perda de tempo, pois assistimos a substituições, lesões, simulações de lesões e o tempo sempre a correr. Se a cronometragem fosse feita como proponho, de que serviria todo aquele “teatro” para passar o tempo, enquanto os espectadores pagaram bilhetes, muitas vezes fazendo grandes sacrifícios, para assistirem àquelas encenações, substituições de “grande valor táctico” (queimar tempo)? O árbitro até poderia dizer ao teatral jogador, “não tenhas pressa, esperamos pelas tuas melhoras…” pois o cronómetro está parado. Os que se dizem profissionais teriam de jogar ao ritmo e com a seriedade que muitos profissionais põem em campo e de que são um excelente exemplo.

Todos nos lembramos da situação do Rui Costa ser expulso numa substituição. Se o cronómetro estivesse parado, teria havido algum problema? Se o lançamento lateral não for feito rapidamente, com o jogador a perguntar quatro vezes ao árbitro “é aqui?” e o cronómetro estiver parado, o que ganha com isso? Se o pontapé de baliza ou a marcação de um livre levar uma eternidade, para quê mostrar amarelos (uma gestão algumas vezes parecendo manhosa) se o cronómetro se mantém fechado?

Em resumo: todas as regras que beneficiem o espectáculo serão a sua melhor defesa. Penalizar os batoteiros também se vai revelar pedagógico. Experimentem assistir a jogos de infantis e iniciados e verão como é longa a aprendizagem destas “artes”…

A título de exemplo do que foi dito antes: o primeiro jogo de hóquei em patins a que assisti foi no Palácio de Cristal, nos finais dos anos 50, logo um Portugal - Espanha. Como eu sonhei com esse jogo! No final, o resultado foi de 0 – 0. As duas equipas não saíam do seu quadrado junto à baliza. Só ao fim de 8 anos ganhei coragem para ver jogos de hóquei, em Luanda e levado por amigos. Aqui, sim, reconciliei-me um pouco: as equipas no ultramar preocupavam-se mais em atacar do que em defender. Embora não houvesse ainda a linha do anti-jogo, os ataques eram rápidos e constantes. Neste caso foram os atletas e treinadores que anteciparam algumas as regras que apareceram depois. O tempo de jogo, gerido quase ao segundo pelo basquetebol nos momentos finais, é outro espectáculo e as estratégias postas em campo para terem sucesso, mesmo fortemente condicionados, são trabalhadas e vividas por todos, dentro e fora do campo. Uns finais com emoção são bem preferíveis ao “método global de queimar tempo” que nem precisa de treino. Já vem da escola…