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Duelo de estrategas: Jorge Jesus vs Domingos Paciência por Jorge Carneiro em 2011-11-28

Benfica e Sporting proporcionaram um espetáculo intenso e apaixonante, quase sempre bem jogado nos limites e, ainda por cima, interpretado de uma forma sempre leal pelos atletas. Quem foi ao estádio não terá dado o dinheiro do bilhete por mal empregue, quem seguiu pela televisão invejou quem foi ao estádio. Parabéns também a João Capela e seus pares, desde logo por terem conseguido dosear o apito num desafio recheado de determinação e contacto físico mas sempre leal; onde outros árbitros teriam certamente cedido à tentação de interromper o jogo a cada minuto. Pelo contrário, João Capela ajudou ao espetáculo protagonizando uma arbitragem sem quaisquer casos ou polémicas.

Posto isto, o derbi lisboeta permitiu colocar frente a frente dois dos melhores treinadores nacionais: Jorge Jesus, com larga experiência a nível nacional e já com um título de campeão na bagagem; versus Domingos Paciência, um passado de jogador brilhante e um início fulgurante como treinador em Leiria, Académica, Braga e um papel importante na actual regeneração do Sporting. Segue um pequeno resumo do combate tático entre os dois.

Na equipa inicial

Contrariamente ao que frequentemente faz quando defronta adversários em melhor momento ofensivo, Jorge Jesus não alterou muito a estratégia habitual e apostou apenas em Jardel para o lugar de Luisão, prevendo que os cruzamentos de Diego Capel e o perigo de Van Wolfswinkel exigissem alguém dominante peos ares. Já Domingos Paciência optou por surpreender a meio-campo, colocando Carriço a proteger a rectaguarda no lugar que à partida seria de André Santos. A intenção seria com certeza reforçar a vigilância às rupturas de Aimar ao mesmo tempo que libertava Schars, Elias e Matias para criarem desiquilibrios a toda a largura do terreno.

Ambos os técnicos foram pouco felizes nas suas opções. Lento e sem ritmo, Jardel nunca se entendeu com as rupturas de Elias e concedeu demasiado espaço aos jogadores que entraram na grande área encarnada, embora até tenha estado bem na fase em que o Sporting despejava bolas para o interior da área e conseguido algumas dobras atabalhoadas a Maxi. Do outro lado, Carriço passou uns primeiros 20 minutos muito complicados a lutar desesperadamente contra o meio-campo do Benfica, não conseguindo ainda encontrar o tempo e espaço para construir a que está habituado quando joga na sua posição de origem e perdendo assim várias bolas. Quando Matias se lesionou e entrou Carrillo o Sporting começou a necessitar que também Carriço construísse jogo, mas aí vieram ao de cima as suas limitações no passe longo com várias bolas a perderem-se pela linha lateral. Vantagem para Jorge Jesus neste particular apenas porque os deslizes de Jardel acabaram por não ter consequências, enquanto que Daniel Carriço travou a progressão ofensiva do Sporting.

As substituições

A estratégia verde e branca de colocar 3 homens na intermediária mais Matias a reforçar na fase de construção estava a obrigar o Benfica a baixar no terreno, quando o chileno foi obrigado a abandonar por lesão. Sem outro playmaker de raiz no banco Domingos optou por fazer entrar Carrillo, um atleta mais de linha, para o seu lugar. Essa substituição significou duas coisas para o trio da intermediária: que passava a estar em igualdade numérica na luta contra os encarnados (e com Gaitan e Bruno César a baixaram mais que Capel e Carrillo), e como desse trio apenas Schaars tinha qualidade de passe suficiente para alimentar o trio da frente, que o Sporting afunilava o seu jogo pelos pés do holandês, tornando-se mais facilmente anulável. Como resultado o Benfica conseguiu um ascendente claro a meio campo que se traduziu no melhor período encarnado em toda a partida e, acabou por chegar ao golo com alguma naturalidade.

As substituições seguintes vieram no período entre os 60 e os 70 minutos como consequência da expulsão de Cardozo, período que marcou uma reconfiguração completa do tabuleiro de jogo. Enquanto que Domingos Paciência fez uma substituição com 64' de atraso (Carriço por André Santos) para procurar aumentar a fluidez de jogo leonina, Jorge Jesus retirou o seu melhor jogador em campo (Aimar, no que pareceu inicialmente uma decisão discutível) e o ala em menor rendimento (Bruno César) para lançar Rodrigo e Ruben Amorim - com o pormenor de espaçar as substituições por 2 minutos, talvez para não dar pistas do que pretendia. Com isso preparou a equipa para um modelo mais adequado ao momento: um avançado móvel para o contra-ataque, entregar a batuta a Witsel, e reforçar as laterais com dois jogadores combativos para fazer frente às maiores ameaças do adversário, mas tecnicistas q.b. para não abdicarem do ataque. Funcionou em pleno, e acresce que naquele momento com o Benfica cerrado na retaguarda André Santos já não era um jogador necessário: o Sporting finalmente trocava bem a bola a 40m da baliza, mas também tinha uma equipa encarnada inteira de permeio e continuava a faltar quem fizesse os passes de ruptura...

As duas últimas substituições deram-se praticamente nos últimos 10 minutos do desafio. Domingos esgotou as suas primeiro, acrescentando presença na área com Bojinov, e para isso sacrificou Insua e recuou ligeiramente Schaars. Infelizmente foi mais um momento menos feliz do jovem técnico, dado que o argentino estava na sua melhor fase no jogo - finalmente a apoiar Diego Capel nos últimos 30m, a aparecer frequentemente quer em diagonais quer junto à linha, fazendo Maxi Pereira jogar nos limites para segurar a ameaça hispano-argentina. Do búlgaro, nada resultou... Jesus previsivelmente retirou o esgotado Gaitan para fazer entrar o buliçoso Nolito, não só para continuar a travar João Pereira, mas para explorar melhor o contra-golpe - e quase que colheu os frutos dessa opção.

Tudo somado, vantagem novamente para o técnico benfiquista neste duelo em particular.

As mudanças táticas

Pouco a relatar neste campo. Do lado do Benfica praticamente nada foi feito para lá das substituições, até porque a equipa pareceu sempre adequada aos diferentes momentos do jogo.

Do lado do Sporting enfâse para o adiantamento do Elias após o intervalo para zonas mais próximas de Van Wolfswinkel - antes parecia ser Schaars que apoiava mais de perto o compatriota - que colocou problemas ao Benfica ainda antes da expulsão de Cardozo. Por outro lado a opção de apenas trocar os flanqueadores de lado nos últimos 10 minutos foi incompreensível, já que Capel apesar de obrigar Maxi a suar nunca conseguiu quebrar o lateral uruguaio, e do lado oposto Carrillo falhou completamente em materializar as maldades que ia fazendo a Emerson em algo concreto. Mal trocaram de lado Capel começou a colocar cruzamentos na área e Maxi foi mesmo surpreendido pelas diagonais de Carrillo. E se tivesse acontecido apenas 10 minutos mais cedo?

A conclusão

Domingos Paciência pode ser o treinador do momento, mas neste derbie perdeu para a experiência de Jorge Jesus, sem contestação. Mas ficamos à espera do próximo confronto!