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Euro 2012: A nossa realidade por Jorge Carneiro em 2012-06-06


Os resultados da equipa de todos nós em nada têm impressionado, e hoje em dia Macedónia e Turquia são dois espinhos encravados que nos cobrem de ridículo e nos tornam alvos do desprezo de adversários. No entanto mais importante do que atribuir culpas será analizar e contextualizar a situação actual. Penso que esta é a equipa com menor valor a nível individual dos últimos 15 anos, a que não é alheio o facto de termos esquecido por completo a fórmula para formar e maturar talento futebolístico. Futre, Vítor Baía, Rui Costa, Figo e Ricardo Carvalho passaram sem deixar sucessão - resta-nos a aberração estatística que é Cristiano Ronaldo e que, infelizmente, mesmo assim não consegue render por outros 10. Há ainda um Pepe importado como tantas outras coisas, um Coentrão capaz de arrancar sorrisos de esperança mais Nani e João Moutinho como valores seguros. Talvez ainda um Rui Patrício a ameaçar marcar uma era. O resto, temos de ser honestos, são opções assim-assim neste patamar - bons atletas a nível de clubes, mas longe de referências internacionais como Paulo Sousa, Jorge Costa, Sérgio Conceição, mesmo Maniche.

Um pouco de história recente: em pleno declínio das nossas selecções jovens, Mourinho conquistou a Europa em 02/03 e 03/04 com um FC Porto nacionalizado, montado com peças sub-valorizadas provenientes de vários clubes internos (Nuno Valente, Paulo Ferreira, Maniche, mais tarde Pedro Mendes e Bosingwa) e projectando também jovens da cantera (Postiga, Ricardo Costa, Ricardo Carvalho) numa equipa montada em torno de referências do clube e do país. Mostrou-nos assim o caminho e fez todo o trabalho de base para criar a espinha dorsal que Scolari durante meses desprezou e mais tarde foi incapaz de rentabilizar em títulos, apesar de sempre se encontrar debaixo dos aplausos da imprensa, federação e da maioria do publico. Salvo alguns ajustes, muitos destes elementos formariam o núcleo duro da geração que glorificou o país no ciclo entre 2004 e 2010, dando sequência ao trabalho da Geração de Ouro.

Hoje, numa altura em que se investem milhões para formar adolescentes sul-americanos e africanos mas em que se recusa pagar dois ordenados mínimos e direitos de formação para ter um ex-júnior lusitano entre as fileiras, a selecção sub-21 joga com muitos nomes desconhecidos do grande público e Paulo Bento enfrenta uma enorme crise de opções com reflexos naturais no leque de escolhas. Prepara-se também para sofrer a ira dos Portugueses dado que estes, habituados a outras exibições e resultados, exigem vitórias e glórias a atletas estreantes ou que em alguns casos lutam pela manutenção nos seus clubes de segunda linha, onde por vezes nem são titulares. Não vai acontecer.

Todas as selecções têm ciclos de renovação sem resultados tangíveis ou simplesmente gerações perdidas futebolísticamente. Estamos actualmente a atravessar uma das maiores crises de talento de sempre e que felizmente é em muito disfarçada pelos sucessos indíviduais de Cristiano Ronaldo e pela enorme capacidade de trabalho do colectivo. Sim, porque apesar de provavelmente vir a ser o primeiro aspecto a ser colocado em causa pelos adeptos, estou totalmente descansado quanto à dedicação destes jogadores: com uma ou outra excepção todos já mostraram dar tudo pelo emblema que trazem ao peito, preparando-se para lutar, sofrer e, enfim, honrar a camisola que vestem. É tudo quanto lhes peço.

Baixemos então as expectativas. Mesmo sabendo que houve uma Grécia em 2004 e um Chelsea em 2012, temos de ter consciência que passar a fase de grupos é difícil e conquistar o título é apenas uma possibilidade matemática. Espero apenas que sirvam como um grito de alerta para todos os envolvidos no futebol Português: não podemos esperar que o próximo Mourinho venha arrumar a casa por nós. A Geração Coragem brilhou há pouco menos de um ano e mostrou-nos que há matéria-prima bruta disponível. Para além disso Carriço, Adrien, Bruno Gama, Castro e Vieirinha são algumas excepções de uma outra geração que se perdeu no Chipre e na Roménia enquanto procuravam o seu lugar ao sol. É necessário dar agora tempo a Paulo Bento para que com estes e outros recursos crie um conjunto de opções credíveis com uma identidade forte, e exigir à Liga e aos seus clubes que criem condições para estes novos talentos não estagnarem, assegurando outra década de sucessos para o futebol Português. Afinal é o que todos queremos, não é?