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Análise de meio de época 2012/2013 por Hernâni Ribeiro em 2012-12-24

É Natal. As famílias reunem-se à mesa. Além de prendas trocam-se memórias, planos para o novo ano, conversas sobre a actualidade do país, etc. Tudo se discute. Mas inevitavelmente a coisa anima quando o assunto é futebol. Todos sabem que o Benfica vai à frente, e que o Cardozo tem mais golos. Mas será o Benfica realmente a equipa mais eficaz? E quanto tempo precisa o Cardozo para apontar um golo? Não haverá outros goleadores por aí escondidos no meio da simplicidade dos números? Nós no ForaDeJogo gostamos de números e não gostamos deles simples, por isso proposemo-nos este ano a abordar a estatísticas do campeonato de uma maneira menos leviana. Venham daí e brilhem também vocês à mesa de Natal.

Comecemos então pelo que dá (ou devia) dar mais que falar: o golo. O Benfica não só lidera a classificação como também os golos marcados. Mas não esqueçamos que Porto e Vitória Setúbal têm um jogo em atraso, portanto todas as estatísticas serão apresentadas em números relativos.

Confirma-se aqui que os 3 primeiros são os que têm melhor relação com o golo. A grande surpresa é o Beira-Mar, que sem ter um goleador vincado visto que o ponta-de-lança nesta melhor fase da equipa até tem sido Balboa, consegue ser a 4ª equipa mais concretizadora do campeonato. No extremo oposto, Marítimo e Sporting não conseguem sequer um golo por jogo.

E é pegando no caso do Sporting que passamos à próxima análise. Quantos remates precisa cada equipa para marcar um golo? Porto, Benfica e Sporting são as equipas que tradicionalmente mais atacam e isso revela-se no número de remates por jogo. Porto e Benfica com 18, e Sporting e Nacional com 15, lideram as médias, portanto não será por falta de chegada à baliza que a equipa leonina peca. Mas juntando as duas peças verifica-se o desastre que tem sido a eficácia de remate leonina ao longo da época. Atente-se no gráfico abaixo para perceber a dimensão do problema...

O Sporting precisa de quase 18 tentativas para marcar um golo! Agora olhe-se para Benfica, Porto e Braga que rondam os 7, e perceba-se que passa por aqui grande parte do problema do Sporting (dentro do campo). O Braga é aliás a equipa com melhor eficácia remate/golo de todo o campeonato. Exige-se portanto pouco espaço dado a Éder, Mossoró, Alan e companhia, coisa que ironicamente só duas equipas conseguiram: o Paços, e o... Sporting.

Por esta altura já todos nos lembrámos de Van Wolfswinkel. Muito criticado ultimamente, como referência principal de um ataque com grandes problemas é normal que seja naturalmente associado ao que de mal vai na falta de relação dos leões com o golo. Mas será justo? Extendendo a análise colectiva à análise individual dos pontas-de-lança mais utilizados da Liga, veja-se qual a eficácia remate/golo de cada um:

O holandês é o sexto mais eficaz da Liga na relação com a baliza, superando até o portista Jackson e Lima que tem estado em grande destaque no Benfica, portanto se as culpas têm que ser apontadas a alguém não será com certeza ao holandês. Visando os 10 jogadores de campo mais utilizados pelo Sporting esta época descobre-se que talvez os laterais e os extremos tenham que trabalhar bem mais a finalização. Veja-se:

Cédric e Capel precisam de mais de 10 remates para a acertar com as redes. E Carrillo é o homem que mais remata de todo o plantel (2,3 por jogo), e nunca fez balançar as redes pelo lado de dentro. Portanto se calhar em vez de tentarem tanto, mais valia passarem a Ricky... Nas outras equipas destaca-se Meyong, que precisa de menos de 3 remates para marcar. Confirmam-se Éder e Cardozo como matadores por excelência, e há a surpresa Abel Camará que joga algumas vezes longe demais da área, mas que confirma até nessas posições a precisão de remate que possui. Por outro lado o autêntico falhanço que tem sido Fidélis no Marítimo. Esse sim o grande responsável pelo desastre que tem sido o ataque da equipa de Pedro Martins. Danilo, Sami, David Simão e companhia muito têm que trabalhar até o brasileiro tornar útil o esforço dos colegas... Destaque ainda para Silvestre Varela, que por não ser ponta-de-lança não aparece nos gráficos, mas que no campeonato precisou apenas de 8 remates para apontar 3 golos. Louvável.

Certo é que para marcar golo é precisar acertar na baliza. E quais são que mais facilmente o fazem? Ou seja, dos jogadores que mais rematam no campeonato quem é que se revela melhor a acertar pelo menos entre os postes? Algumas surpresas...

Cardozo é o jogador que mais remata do campeonato. São 5,3 remates por cada 90 minutos em campo, seguido de Lima (4,9) e Jackson (4,5). Mas ao passo que o paraguaio acerta entre os postes 54% das vezes, Lima só o faz em 37% das tentativas. No entanto, neste top 25 rematadores o mais eficaz é Éder do Braga, que acerta na baliza 56% das vezes, sendo que inversamente Hélder Barbosa e Vítor precisam de afinar bem melhor a pontaria. Há ainda o caso curioso de Fidélis que apesar da má relação com o golo apresenta bons número no que concerne à eficácia de remate. O problema é existirem guarda-redes... Já Van Wolfswinkel, que não aparece neste quadro por não estar no top de jogadores que mais remata, quando o faz acerta na baliza 73% das vezes. Números fantásticos e muito acima dos outros pontas-de-lança dos grandes. Candeias do Nacional é provavelmente o mais desastroso dos atacantes. Com uma média de 1,8 remates por cada 90 minutos de jogo, ainda por nenhuma ocasião acertou sequer com a baliza!

Pouco explorados também são os números relativos aos foras-de-jogo. Quem são as equipas que melhor e pior evitam esta espécie de armadilha do jogo. É o número de foras-de-jogo directamente proporcional ao volume de ataque de cada equipa? A resposta intuitiva seria sim. Mas os dados respondem um redondo não. Veja-se:

O Benfica apesar do 1º lugar na classificação e em golos está no Top 3 das equipas que menos cai em fora-de-jogo. As outras duas equipas em destaque neste parâmetro são Nacional e Estoril, curiosamente ou não, equipas que jogam com avançados rápidos como Rondón e Luís Leal na frente. Equipas com pontas-de-lança menos móveis e possantes como Académica (Edinho/Cissé), Moreirense (Ghilas), Marítimo (Fidélis) ou Vitória Guimarães (Soudani e Baldé), caem mais vezes na armadilha. O mais desconcentrado é mesmo Soudani, de quem se pode esperar que caia 1,7 vezes em fora-de-jogo por jogo, seguido de Abel Caramá e Salim Cissé com 1,6. No entanto se relaccionaros os foras-de-jogo com a quantidade de golos marcados os piores são Hurtado do Paços de Ferreira e (novamente) Fidélis. Ambos caem em fora-de-jogo 12x antes de marcarem um golo!

Virando agora a agulha para a fase defensiva do jogo, aconselha-se um olhar às faltas e aos cartões. Serão as equipas que mais defendem mais propensas a cometer faltas. A resposta não é clara.

O campeão e segundo classificado Porto é a equipa que menos faltas comete. Mas por outro lado o líder Benfica esta acima da média no mêsmo parâmetro com 15,5 faltas por jogo. Uma explicação para isto é a zona onde essas mesmas faltas são cometidas. Efectivamente os jogadores com maior de média de faltas por jogo na equipa encarnada são André Gomes, Salvio, Matic e Rodrigo, o que aponta a tendência para as faltas serem feitas em zonas de menor perigo, evitando assim tanto livres perigosos como cartões. Já na época passada esse papel era muito inteligentemente desempenhado por Aimar, mostrando assim que isso não é por acaso nas equipas de Jorge Jesus. Veja-se como suporte, o número de faltas que cada equipa comete até ser admoestada com um cartão.

Agora sim, há uma clara correlação entre o número de faltas que cada equipa precisa de fazer para lhe ver ser mostrado um cartão, e a classificação actual. Apenas Olhanense e Braga, por razões inversas destoam um pouco desta tendência. De facto os algarvios apresentam um média semelhante à de Benfica e Porto muito devido à acção de Rui Duarte e Fernando Alexandre no meio-campo, e os arsenalistas não parecem usar grande inteligência táctica nas suas acções faltosas, mas compensam com eficácia noutros parâmetros como já se viu na análise aos remates. O grande destaque pela negativa vai mais uma vez para o Sporting, que vê um cartão por cada 4 faltas que faz. Os mais simplistas argumentarão com as arbitragens, mas a falta de estratégia, concentração, e até algum nervosismo ligado ao momento da equipa justificam esta evidência. Se olharmos aos 10 jogadores que mais faltas fazem, juntamente com os 10 jogadores que mais cartões levam por jogo, podem identificar-se as diferenças.

O Sporting comete a proeza de ter 3 jogadores no top 4 de jogadores que mais cartões recebem por jogo. Cédric, Carrilo e Rojo são admoestados a cada 3 faltas que cometem. Veja-se por exemplo o contraste com o recordista Cícero, que conseguiu fazer 34 faltas vendo apenas um cartão amarelo. Salim Cissé é de todos o mais faltoso, mas também só recebeu 2 cartões. Destaque ainda para Moreno, médio defensivo do Nacional que demonstra uma grande falta de prudência e sangue frio para a importante zona do terreno que ocupa, o que não deverá ser alheio à má época da sua equipa.

E se uns fazem outros sofrem. E nesse ranking há uma grande surpresa. Pedro Santos rookie recém-chegado à Liga, é a grande distância o jogador que mais faltas sofre por jogo, seguido de David Simão, batedor de faltas por excelência, que tenta ganhar para si maneiras de tornear a falta de eficácia de Fidélis.

Para os fanáticos de estatística, aqui fica mais um presente dos donos da casa para os nossos visitantes. Voltamos no final da época. Bem hajam.