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Associação Naval 1º de Maio
A barreira franco-luso-BrasileiraJorge Carneiro Ponto prévio: o 8º lugar final é muito lisonjeiro para a Naval, quer para a qualidade individual dos seus jogadores, quer para a qualidade do futebol jogado na Figueira da Foz. Premeia uma série de opções discutíveis de mercado, uma troca de treinador no mínimo infantil - sem menosprezo para o bom trabalho de Augusto Inácio - e, uma vez mais, para um estilo de jogo medíocre e sem risco, assente em lançar bolas da defesa/meio campo defensivo para a inspiração de Bolívia, Marinho ou de quem lá mais andasse. A qualidade do futebol pode certamente ser explicada pela reconstituição do plantel levada a cabo por Aprígio Santos que, certamente invejoso do sucesso Cissohko e procurando imitar a fórmula, importou um autêntico contentor de amadores dos distritais Franceses sem grande critério. Como consequência directa o plantel ficou preenchido com uma terceira linha de atletas físicamente portentosos mas muito limitados em todos os restantes aspectos (e portanto inutilizáveis), obrigando assim os seus treinadores a manter a aposta na base da época anterior, que já de si tão mau futebol havia praticado. Ulisses Morais criticou publicamente a opção e viu-se rapidamente silenciado; Inácio aceitou o desafio de salvar o plantel, mas na penumbra cedo começou a encostar e a dispensar os elementos de menor valor, a substitui-los por algumas mais-valias escolhidas a dedo no mercado de Vera Cruz, e a recuperar os melhores valores individuais de 08/09. No final da temporada verificou-se que o plantel incluiu 9 Portugueses - maioritariamente em papeis secundários - 10 Brasileiros e 11 jogadores gauleses (contabilizando também N'Kake), mais um Kovacevic que confirmou o estatuto de flop. Recomeçando então a análise à temporada: no seguimento de uma pré-época recheada de franceses e maus resultados, Ulisses Morais deu sequência às exibições nos amigáveis e não conseguiu vencer nenhum dos seus primeiros 3 jogos. Pior que isso, questionou a valia dos seus próprios jogadores, o que foi a gota de água para que Aprigio ignorasse dois anos de bons serviços a fim de satisfazer o impulso de demitir o seu treinador. Entraram em cena o bombeiro Mira e depois o recém-regressado a Portugal Augusto Inácio, estava a Naval posicionada em 15º lugar com um contentor de jogadores para devolver à procedência, 8 golos sofridos e um marcado... por Rolando, na própria baliza. Um panorama desolador que foi afastado por Kerrouche. Ainda mal chegado à Figueira da Foz, já Inácio delineara uma estratégia para aproveitar o seu jogo de cabeça, apostando no pé esquerdo de Camora e no direito de Marinho para garantir que a bola chegava nas melhores condições à pequena área. O fulgor durou 4 jogos e rendeu três vitórias e um salto para o 9º posto, com o pódio de melhores marcadores ao final do primeiro terço do campeonato a ser constituído por 1º - Kerrouche, 5 golos; 2º - Diego Ângelo e Rolando, com um golo. Daí para a frente pouco há a reter, com o percurso a caracterizar-se por muitos jogos a jogar para o empate e poucos ou nenhuns resultados desnivelados ou inesperados, e para o facto de que sem a contribuição de Kerrouche a Naval perdeu toda a noção de caminho para o golo, apontando o paupérrimo total de 4 nos 10 jogos seguintes. Felizmente o problema não se verificava para a Taça de Portugal, onde paralelamente a equipa ia trilhando caminho, beneficiando de muita fortuna nos sorteios para evitar planteis da primeira liga e derrubando adversários menores com grande dificuldade - mas vencendo de uma forma ou de outra. Viriam a baquear apenas na meia-final frente ao secundário D.Chaves, derrotados essencialmente pela garra e organização defensiva flaviense - que foi mais do que suficiente para segurar o débil poder de fogo navalista - e pela inspiração de Ricardo Rocha e de Edu. As estatísticas finais mostram que a Naval conseguiu a 7ª melhor defesa do campeonato com 35 golos sofridos - poderiam ter sido menos não fosse o descalabro com o Braga - , mas combinou-o com o título destacado de pior ataque: apenas 20 golos, menos do que Cardozo ou Falcao marcaram individualmente. O ataque da primeira volta viveu sobretudo dos piques e das correrias de Marinho, e principalmente dos seus cruzamentos para golo (Kerrouche que o diga). O da segunda, com o pequeno extremo remetido para o banco em detrimento de Bolivia, viveu quase exclusivamente do efeito de Fábio Júnior, contratação de Inverno capaz de colocar uma defesa inteira a respeitá-lo em apenas 5 minutos de correria. Outra coisa que as estatísticas demonstram é que o mercado francês até pode ter muito potencial - Peiser e Godemeche provaram-no - mas possivelmente será melhor observar com atenção as ligas nacionais em vez dos desafios entre amadores. Felizmente, quase todos os contratos assinados não tinham duração para lá deste ano, livrando o clube de uma série de encargos indesejáveis. O momento: 7ª jornada - Naval 3-2 Rio AveCom uma época muito discreta e quase sem motivos de interesse, o jogo à 7ª jornada acabou por ser o mais importante da temporada: foi a segunda vitória para a liga, o jogo com mais golos dos Navalistas - 15% do total da temporada! - e logo frente a um adversário em alta. Serviu também para Augusto Inácio apresentar as suas ideias acerca da estratégia a utilizar para o resto do campeonato, juntando muitos dos jogadores que viriam a constar no top de maior utilização em detrimento das aquisições gaulesas, e moldando o onze num 4-4-2 de contenção com uma intermediária pouco móvel mas capaz de colocar a bola nos homens da frente com rapidez e alguma precisão. A chave do triunfo esteve no meio-campo, onde o trio Lazaroni, Godemeche e Hauw, mais pujante, se superiorizou a Vilas Boas, Ricardo Chaves e Wires, menos elástico e teoricamente melhor na circulação de bola; e ainda desempenhou papel importante na anulação de Bruno Gama, principal agitador do adversário vila-condense. De resto, Kerrouche marcou mais dois golos muito fáceis aproveitando assistências venenosas do dinâmico Marinho, que demoliu a estratégia defensiva de Carlos Brito e se fartou de colocar gente na sua peugada. Estrela: Diego Angelo - arriverdeci bambino!De agradável surpresa em 07/08 a elo mais fraco da defesa em 08/09, passando pela frustração inerente à anunciada mas nunca concretizada transferência para Itália, muitas eram as interrogações acerca de qual Diego Ângelo se apresentaria em 09/10. Pela primeira vez sem o apoio da (grande) sombra protectora de Paulão, pedia-se "apenas" ao central formado no Santos que não só comandasse o seu depauperado sector defensivo, mas também que formasse uma dupla eficaz com um central limitado e sem experiência profissional como o era Gomis. Não se atemorizou, puxou dos seus galões e superou todas as expectativas à custa de muito suor e rigor, e pode com justiça reclamar uma boa quota-parte da prestação defensiva da Naval e da evolução registada pelo franco-guineense. Diego Angelo é um central moderno, muito à vontade com a bola nos pés e capaz de oferecer mais à equipa do que carisma e segurança defensiva. É muito forte no primeiro passe, sendo frequente ser o primeiro a definir as jogadas atacantes a Naval; e a sua contribuição ofensiva também é de destacar, apresentado-se como o marcador por excelência de bolas paradas directas para além de um grande perigo aéreo nas restantes. Os seus 3 golos colocam-no aliás no pódio dos melhores marcadores navalistas e, como curiosidade extra, sempre que Diego marcou a equipa venceu o respectivo jogo, o que é muito significativo quando se fala de um poder ofensivo muito diminuto como o da Naval. A defender baseia-se na constituição física de impor respeito e na simplicidade de processos, atacando a bola com uma sofreguidão que esconde as suas capacidades técnicas. Quase intransponível pelo ar, duro e eficaz pelo chão, apenas se lhe pode apontar alguma falta de velocidade como defeito óbvio. No mercado de Inverno começaram a circular rumores mais ou menos persistentes de uma suposta transferência para o Génova de Itália, desmentidos no final pela continuidade do jogador no plantel navalista, sem denotar qualquer oscilação na boa forma que vinha demonstrando. Só que terminada a temporada Aprigio Santos tratou imediatamente de confirmar o acordo, que aparentemente rende fundos suficientes aos figueirenses para estruturarem o próximo plantel com tranquilidade. Fica a certeza que parte desses fundos deverão ser empregues a encontrar uma referência para alinhar ao lado de Gomis, pois este dificilmente estará já pronto para sobressair sem um líder para o ensinar. Quanto a Diego, arriverdi e buona fortuna! Revelação: Fábio Júnior, samba pra cima deles!A referência Marcelinho partiu pouco depois de iniciado o campeonato deixando a Naval com Kerrouche como o seu homem-golo, e o franco-argelino arrancou de forma fulgurante, somando rapidamente 5 tentos divididos por apenas 3 jogos. Jamais voltaria no entanto a balançar as redes, demonstrando muita dificuldade em integrar-se na estratégia ofensiva desenhada entre outras limitações. Augusto Inácio, frustrado com o seu rendimento, apontou agulhas para o Brasil na reabertura de mercado, e foi mesmo no modesto Campinense de Paraíba que conseguiu encontrar um dianteiro à medida do futebol Português: muito móvel, muito robusto fisicamente, de drible possante; capaz de sozinho preencher a linha avançada; e ainda com experiência de primeira divisão Brasileira. Assim chegou Fábio Júnior à Figueira da Foz. Se as expectativas eram elevadas, o pequeno Brasileiro cedo tratou de corresponder tendo tido impacto imediato nas exibições navalistas, marcando na estreia frente ao Pinhalnovense, para a Taça. Por outro lado o primeiro golo para o campeonato tardou bastante, surgindo apenas à 25ª jornada e logo frente ao futuro campeão Benfica, mas muito antes disso a influência de Fábio Júnior já era notória no ataque Figueirense. Brilhante a sua capacidade de receber a bola de costas ainda em zonas muito recuadas do terreno, segurando-a e aguentando cargas sucessivas enquanto define a jogada a desenvolver. Depois... depois é furar; passar por um, passar por dois, conquistar a linha de fundo ou a diagonal para a área se houver espaço; rematar, cruzar, rematar uma vez mais. Procurar o espaço vazio, ou criá-lo através do caos; a partir de onde for, seja quem for o adversário. Afinal, ser desamparado por um meio campo muito recuado não é desculpa para se esconder do jogo. Afinal, é sempre possível passar por qualquer defensor, seja ele um David Luiz ou, diga-se, um Lupede ou um Gomis. Um total de 5 golos em meia época é um registo a não desdenhar, especialmente quando inclui tentos ao Benfica e ao Sporting - neste caso rendendo mesmo a vitória sobre os leões. Por contabilizar restam ainda as várias assistências que providenciou e a desestabilização constante a adversários. Fica apenas o amargo de não conseguir roubar o título de melhor marcador da equipa a Kerrouche, mesmo fazendo claramente mais por isso em meia época do que o franco-argelino a tempo inteiro; sobra-lhe a satisfação de ter conseguido trazer lampejos de bom futebol para um emblema que não produziu muitos ao longo do ano. Desilusão: Davide, o grande ausenteEste espaço poderia estar preenchido com uma descrição dos jogadores que "reforçaram" a Naval no Verão anterior, mas a verdade é que estes jamais geraram expectativas ou consenso no seio da família Navalista, e sendo assim não podem ser considerados como desilusões, mas antes como confirmações. Quanto a Davide, poder-se-ia supor que foi prejudicado pelo fim do seu contrato tal como na época anterior o fora João Ribeiro, desde cedo colocado a treinar à parte por ordem da Direcção; mas na verdade a explicação estava mesmo dentro das quatro linhas. É que quem viu Davide a comandar o futebol ofensivo da equipa em 07/08 e a semear o pânico em 08/09 não pode deixar de ficar apreensivo com o pouco que este produziu nas raras oportunidades que teve este ano, mesmo que obviamente diminuído por não ter uma referência na frente a quem entregar a bola com a precisão que o caracteriza. Talvez se Fábio Júnior tivesse chegado mais cedo a história fosse outra - é fácil de imaginar o potencial de uma dupla com a mobilidade e o toque de bola de ambos - mas infelizmente quando o avançado aterrou já Davide estava catalogado como opção de recurso e a aguardar o final da temporada. Uma outra nota negativa, mais global e a denotar um aspecto em falta no seu jogo: não marca um golo para a liga desde... 2004/2005, então no Estrela da Amadora, então na Honra. Sempre lhe faltaram os golos para o seu futebol atingir uma outra dimensão, mas até hoje nunca tinham faltado as assistências para atenuar... |
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