A triste sina Avense...Jorge Carneiro
E mais uma vez o Aves não conseguiu aguentar-se mais do que uma época na divisão maior do futebol nacional. Mais uma vez apresentou uma equipa aguerrida e lutadora, baseada em talentos Portugueses. E mais uma vez fica a sensação que o Prof. Neca não é técnico de Superliga, apesar do seu discurso positivo, da experiência acumulada, da confiança ilimitada da direcção, e do indesmentível mérito na ascensão da turma Avense à bwin. Possuem uma equipa que transborda talento e principalmente abnegação, mas que também apresenta alguns desiquilíbrios e está muito mal organizada no terreno de jogo. Os jogadores simplesmente não se enquadram num sistema táctico que não tira partido das suas qualidades disponíveis, o que por sua vez origina uma sensação errada de que existe uma grande falta de soluções, nomeadamente ofensivas. As pouquíssimas vitórias conquistadas nasceram sempre de rasgos individuais de Artur Futre, Xano, Filipe Anunciação, Moreira; nunca pôde agradecer ao poder (ofensivo) de um colectivo, que se apresenta sempre solidário e batalhador mas sem mecanismos ou rotinas. E aí é que se vê/deveria ver o trabalho do treinador... A estruturação do plantel também não está a salvo de criticas: é de louvar o facto do Aves ter apostado em manter grande parte dos responsáveis da subida, mas por outro lado é inaceitável que não se tenham corrigido as carências gritantes em algumas posições. Com efeito, o plantel iniciou a época como tinha terminado a anterior: com um único lateral de raiz (Pedro Geraldo, que ainda por cima esteve grande parte da época no banco) e sem uma única referência na frente de ataque; e com um notório excesso de médios-centro. Mais: durante a pré-época o Prof. Neca montou a equipa à volta de Jocivalter, mas à 4ª jornada o Brasileiro já estava remetido ao banco - sem se pôr em causa a opção dado o fraco rendimento do atleta, é um rude golpe para uma equipa definir mecanismos durante 2 meses apenas para depois começar do zero. Incompreensíveis foram as opções por Leandro e Octávio enquanto titulares durante grande parte da época - o primeiro acumulou exibições miseráveis na ala direita enquanto o segundo somou um total de... zero golos. E com Hernâni, Dill e Artur Futre no banco... A campanha do Aves andou desde muito cedo ligada aos últimos lugares da classificação, muito por culpa do péssimo arranque: nas primeiras 9 jornadas o Aves somou apenas dois pontos! A primeira vitória surgiu então apenas à 10ª jornada, mas o segundo terço de campeonato manteve-se muito modesto para as necessidades da equipa: apenas uma vitória e 3 empates nos 10 jogos seguintes. Pelo meio chegaram os reforços de Inverno - Nuno, Jorge Ribeiro, Moreira e Paulo Sérgio - um conjunto de nomes sonantes que, contudo, continuavam a não preencher as lacunas mais evidentes do plantel: as laterais (Jorge Ribeiro foi sempre utilizado como médio interior esquerdo) e o centro do ataque (Moreira seria a única opção mas lesionou-se com gravidade logo ao primeiro jogo). Finalmente, o inicio do ultimo terço de campeonato mostrava um Aves em grande forma (3 vitórias e dois empates!), perspectivando uma gloriosa recuperação rumo à manutenção, mas as derrotas nas três últimas jornadas frente ao União de Leiria e principalmente frente ao Estrela da Amadora em casa deitaram por terra todo o esforço dos Avenses.
O Aves chegava à penúltima jornada acima da linha de água e em posição privilegiada para conseguir a manutenção frente aos seus concorrentes directos. Com o Vit.Setúbal a defrontar o Benfica e o Beira-Mar a deslocar-se à Madeira para defrontar o inconsistente mas sempre espectacular Nacional, se tudo corresse como planeado uma vitória asseguraria a permanência, dado que colocaria os avenses definitivamente fora do alcance pontual dos sadinos e com vantagem no confronto directo sobre a turma de Aveiro. No entanto o Desportivo local desde cedo se colocou na posição de derrotado (Moses marcou aos 16m na sequência de falha defensiva), acabando por assinar uma exibição terrível, confusa e desesperada, da qual resultou uma derrota que colocava o futuro maioritariamente nas mãos dos oponentes directos. E como estes não falharam na última jornada, o Aves passou de acima da linha de água directamente para a lanterna vermelha...
Todos os sectores do plantel Avense estiveram tremendamente intermitentes e sujeitos a grandes oscilações de forma... excepto pelo meio campo, sempre muito sólido e consistente e com grande parte do mérito a ir para Filipe Anunciação. Já no ano anterior se tinha assumido como uma das principais figuras do plantel que ascendeu à Bwin Liga, e na ausência de bons desempenhos dos avançados acabou por reforçar a sua importância no plantel. Esta época o médio soube complementar a entrega dos companheiros de sector (normalmente Mércio e Jorge Ribeiro) com um sentido táctico irrepreensivel e muita qualidade a soltar a bola para a frente de ataque - um dos poucos a conseguir organizar jogo colectivo numa equipa que ofensivamente viveu de fogachos individuais. Aos 28 anos é um jogador de créditos firmados no futebol nacional, um típico produto da escola de centrocampistas do Bessa - físico, suor e objectividade combinados num médio completo. Como prémio pelos desempenhos acima da média, na próxima época irá jogar no "europeu" Paços de Ferreira, uma equipa bem à sua imagem e pela qual inclusive já alinhou no passado...
Até esta época Artur era apenas conhecido como o sobrinho de Paulo Futre, o craque Português nos anos 80; tinha coleccionado apenas algumas épocas no Alverca sem qualquer destaque, um contracto assinado com o Benfica que não lhe trouxe nenhuma oportunidade, e uma passagem pelo Maia que também não lhe rendeu muita fama. Este ano no Aves não prometia ser melhor em nada, já que desde cedo foi relegado para o banco ou para a bancada - até que à 10ª jornada e frente ao poderoso Nacional o Prof. Neca o fez estrear, e logo no onze inicial. Resultado: ao longo dos 70 minutos em que esteve em campo Artur Futre marcou dois golos e manteve a defensiva Madeirense em sentido, e graças ao seu contributo o Aves conquistava a sua primeira vitória. Manteve-se na equipa titular mais 3 jornadas, evidenciando uma combinação interessante de drible, velocidade e bom toque de bola, assinando boas exibições e marcando mais um golo; e depois, subitamente e sem justificação, começou a perder espaço e a ser relegado para o banco apesar de cumprir e brilhar sempre que chamado. No final o Aves pode ter descido de divisão, mas a Artur Futre resta a consolação de ter estado presente em tudo de bom o que a equipa produziu ao longo da época - e princiapalmente de se ter finalmente revelado ao universo desportivo.
O guarda-redes chegava como desconhecido ao futebol luso, mas já vinha sendo apontado como reforço de alguns clubes nacionais de primeira liga; o ala/avançado vinha de um final de época muito positivo no Penafiel, e apesar da despromoção ostentava credenciais várias no Brasil e algumas aventuras em ligas Europeias. Ambos foram verdadeiras desilusões, dado que nenhum fez mais de 5 jogos ao longo da época, tendo Musse inclusive abandonado o clube logo na reabertura de mercado após algumas exibições paupérrimas. Dill sempre foi ficando até ao fim, mas sempre ausente, muito ausente... Fica apenas a dúvida se terá sido vitima de má gestão do Prof. Neca.