Ponto de ViragemJorge Carneiro
Observando a história recente do Nacional, à partida era já previsível que esta época fosse um tanto ao quanto irregular; afinal, desde que o clube ascendeu à liga principal em 02/03 que tem alternado épocas fantásticas com outras bastante irregulares. Começou com um 11º lugar e logo na campanha seguinte atingiu o recorde actual (4º); seguiu-se uma atribulada 12º posição, nova classificação muito positiva (5º), e finalmente o actual 8º lugar, em que a irregularidade foi bem mais exibicional do que classificativa. O facto de não ter bastado para participar nas competições Europeias precipitou a saída de Carlos Brito, mas globalmente o trabalho do técnico foi pelo menos bastante meritório, nomeadamente em matéria de renovação do plantel - não é fácil superar as perdas de Miguelito, André Pinto e Alex Goulart em simultâneo...
A equipa insular cortou com um passado recente, em que apostava num bom guarda-redes e abdicava de impor aspectos tácticos em detrimento de muita fantasia ofensiva, potenciada por um enorme contingente de atletas Brasileiros. Actualmente, em comparação com os últimos campeonatos o Nacional perdeu alguma espectacularidade, mas em compensação apresentou-se como uma equipa muito mais sólida e pragmática, que manteve o gosto em ter a posse de bola e ao qual ainda acrescentou mecanismos de criação de jogo. Ou seja, manteve o sistema habitual (4-4-2), mas mudou claramente a forma de o interpretar, dependendo bastante menos da inspiração das suas estrelas em favor do colectivo. Quanto à composição do plantel este foi globalmente bem construído: começando desde logo por um guarda-redes de categoria internacional (Diego), passando pela defesa sólida e recheada de boas alternativas, e terminando num meio-campo muito consistente e dinâmico que se afirmou como o sector mais forte dos insulares. No entanto, para corresponder às ambições de voos mais altos, faltaram avançados eficazes como antes o eram André Pinto e Adriano... À partida Cássio, (o novo) Adriano, Rodrigo Silva e Chilikov seriam garantias de uma sucessão tranquila; mas Cássio produziu tão pouco que esteve na iminência de ser dispensado, Adriano não rendeu mais do que contas para o departamento médico, Chilikov não conseguiu sequer manter o estatuto de arma secreta, e nem Rodrigo Silva foi o matador por quem os insulares desesperaram ao longo do campeonato... Acabou por ser Diego José, extremo esquerdo que já contabilizara uma passagem frustrada pelo clube, a tornar-se a referência goleadora da equipa nas jornadas finais...
O calendário não se afigurava simples para o Nacional, obrigado a defrontar o rival Marítimo e ambos os grandes de Lisboa nas 3 primeiras jornadas - confrontos dos quais resultaram três derrotas claras. Com Bruno Amaro finalmente inscrito e a completar o melhor trio de meio-campo (juntamente com Chainho e Bruno), os alvinegros partiram então para uma série de 6 vitórias e um empate nos 8 jogos seguintes, escalando até ao 5º lugar e exibindo um futebol muito atractivo e eficiente. Infelizmente, tal como tinham iniciado mal o campeonato também o final foi extremamente penoso - 5 derrotas no último terço - verificando-se ainda uma quebra exibicional e anímica. É curioso verificar que no final da primeira volta já ocupavam o 8º lugar final, muito embora apresentassem resultados ligeiramente inferiores na segunda metade da época (21 pontos vs 18)...
Mais do que o jogo em si, foram as consequências que tornaram este jogo marcante na campanha Madeirense. Terminado o encontro em que o Nacional perdia simultâneamente o 7º lugar e a vantagem no confronto directo para os rivais de Belém, Carlos Brito entendeu por bem operar uma mini-revolução na constituição do 11 inicial. Desfez o trio de meio-campo composto por Chainho, Bruno Amaro e Bruno, retirando primeiro o desgastado estratega, e depois progressivamente o pé-canhão de Penafiel. Como consequência directa o futebol alvinegro perdeu ainda mais da classe, consistência e regularidade evidenciadas até então - mas que já vinham sendo afectadas pelo cansaço acumulado - e Carlos Brito orientou a equipa apenas durante mais 4 jogos, nos quais apenas somou uma vitória. Apenas o mau final de campeonato dos clubes abaixo na classificação evitou que se descessem mais posições na tabela...
Ricardo Fernandes fez a sua melhor época das muitas que já leva na primeira divisão, Chainho foi uma âncora no meio-campo e Bruno Amaro afirmou-se definitivamente como um médio completo, mas o internacional Suiço acaba por ser o único que manteve o mesmo nível exibicional ao longo das 30 jornadas em que participou. Diego Benaglio revelou-se mesmo fundamental em vários jogos, garantindo pontos em momentos complicados - como por exemplo na vitória contra o Boavista à 22ª jornada. Foi notória a evolução das suas capacidades em relação à época anterior: o jovem guarda-redes elástico mas nervoso de 2005/2006 deu lugar uma barreira de gelo concentrada e posicionalmente perfeita, o que também se traduziu no aumento da importância e do carisma junto dos companheiros. As suas qualidades não passaram despercebidas nem ao seu seleccionador nacional nem ao resto da Europa, deixando no ar a pergunta: será que irá mesmo iniciar a próxima época na Choupana?
Disputado por Desportivo das Aves e Nacional durante a pré-época, Rodrigo Silva chegou à Madeira com fama de goleador e o rótulo da grande contratação da época. Não confirmou totalmente a confiança, já que 6 golos em 25 jogos não é um pecúlio minimamente impressionante - qualquer avançado de uma equipa a lutar pela manutenção tem possibilidades de atingir esta fasquia, e o Nacional encontra-se num escalão bastante acima desse. Mas Rodrigo Silva mostrou mais atributos para além dos golos que marcou, nomeadamente agilidade, mobilidade e técnica individual muito acima da média... Pode não ser um homem-golo na verdadeira acepção da palavra, mas é essencialmente um jogador completo e ainda com muito potencial para explodir. Se esta tiver sido a época de adaptação, a de confirmação promete...
Depois de longo hiato no estrangeiro regressou a Portugal para acumular lesões e estadias no banco. É certo que ombreava por uma posição ocupada pelo melhor lateral-esquerdo a actuar em Portugal - o Brasileiro Alonso - e que este ainda por cima tinha a vantagem de já se encontrar há mais tempo no clube; mas mesmo assim esperava-se mais de um jogador que ainda a época passada era observado por Scolari para a Selecção A. É legitimo que se queixe de falta de oportunidades, mas das poucas vezes que esteve dentro do campo destacou-se mais pelo trabalho que dava aos árbitros - faltas e cartões - do pelas capacidades que o levaram a várias ligas Europeias. Capacidades essas que não demonstrou, já agora.