Orgulhosamente vergonhososJorge Carneiro...ou como começar, continuar, e terminar uma época em polémica. Começar, porque a passagem relâmpago de Jesualdo pelo Bessa condenou a pré-época, levou a um esfriar de relações entre Boavista e Porto e originou uma perseguição/agressão a jornalistas implicitamente apoiada pela direcção Boavisteira. Continuar, porque ao longo de toda a temporada se ouviram os queixumes de ex-jogadores e clubes reclamando dívidas e passaram nada menos do que três/quatro treinadores pelo clube. E terminou com a decisão directiva de dispensar a maioria dos jogadores, bem como com a denúncia dos ex-juniores ainda com contrato de que não eram pagos há anos... A todas estas polémicas o presidente João Loureiro e respectivos colegas responderam com uma combinação de segurança, arrogância e desprezo própria de quem se julga impune a cumprir obrigações e imune a punições. O único ponto positivo da sua gestão acaba por ser a forma como contornou as limitações orçamentais decorrentes da construção do novo estádio através de bons empréstimos e grandes contratações a custo zero - assegurou Zairi, Ricardo Sousa, Linz, Jehle, Bessa dessa forma, por exemplo, mais Kaz e Grzelak depois de incumprimentos sucessivos e renegociações dos empréstimos.
Ah, no entretanto também havia uma equipa de futebol a disputar a Superliga Bwin, mas dessa mal se ouviu falar... Sem identidade, afectada pelos constantes problemas directivos, parca em resultados e sem fazer minimamente jus ao espírito lutador e determinado que caracterizava as equipas Boavisteiras num passado recente, limitou-se a revelar alguns novos jogadores e pouco mais. Tacticamente manteve o 4-3-3 voltado para contenção e destruição de jogo adversário, com 3 médios de cariz puramente defensivo e extremos especializados na arte de contra-atacar, mas que nunca asseguraram muitos golos. Salvo algumas muito honrosas excepções, a qualidade exibicional roçou sempre a nulidade característica das equipas treinadas por Jaime Pacheco - compactas mas pouco elásticas, sem processos de transição para ataque e como tal apenas chegando ao golo em lances de bola parada ou iniciativas individuais. Classificativamente, o Boavista andou quase sempre entre os 10º e 12º lugares - bom para quem lutasse pela manutenção, mas manifestamente pouco para uma equipa que assumia o objectivo Uefa e possui o historial que os do Bessa possuem...
A época axadrezada foi tremendamente irregular e desde muito cedo deu para perceber que seria apenas uma questão de tempo até que o Boavista deixasse de ter quaisquer ambições para além da manutenção, que também nunca esteve em risco. Mas escondidos entre vários jogos tristes e descoloridos encontram-se dois verdadeiros momentos de glória, ambos em casa: contra o Benfica, que para além de ter desmistificado desde logo a existência de uma super-equipa na Luz após o regresso de Rui Costa, também foi a melhor exibição boavisteira da temporada e poderia ter sido o inicio de uma grande época; e contra o FC Porto, que confirmou uma pequena subida de forma axadrezada e relançou definitivamente um campeonato que até então parecia precocemente entregue. Em ambos o Boavista mostrou raça, entreajuda, classe e muita, muita qualidade individual; em ambos a exibição intimidaria e faria inveja a qualquer grande clube Europeu. Onde andou essa equipa no resto do campeonato?...
O Boavista experimentou uma alteração na sua politica de contratações, abandonando o imprevisível mercado Brasileiro para apostar na Europa central, e a verdade é que com isso ganhou duas pérolas (Kaz e Linz). O Polaco demonstrou desde cedo qualidades individuais muito acima da média, apresentando-se como um trinco disciplinado táctica e comportamentalmente que impressionou tanto pela estampa física como pela qualidade do pé esquerdo. Apesar do destaque que conquistou a verdade é que começou a temporada com exibições apenas razoáveis, o que poderá ser explicado por se encontrar a jogar numa posição ligeiramente mais adiantada numa clara tentativa de aproveitar as suas qualidades de construção de jogo e remate potente. Mas quando Pacheco o recuou para o lado de Tiago a produção de Kaz subiu em flecha, à medida que se ia afirmando como âncora da equipa enquanto exibia os seus dotes de recuperador de jogo. Terminou a temporada com 5 golos - qual deles o mais espectacular? - uma regularidade exibicional impressionante, e a certeza de que na época seguinte iria transitar para outros voos.
As maiores revelações foram Linz e Kaz - mas o primeiro já tinha nome feito no futebol internacional, enquanto que o segundo mais do que revelação foi a estrela do Boavista; e sendo assim a escolha vai para Nuno Pinto. Apontado como promessa para a ala esquerda, o jovem de 20 anos seria provavelmente à partida o elemento com menos hipóteses de jogar de todo o plantel. Mas foi na concorrida posição de lateral que Nuno Pinto ganhou o lugar ao consagrado Mário Silva, ao semi-desconhecido Fernando Dinis e à adaptação Cissé (vá-se lá perceber Pacheco...), conferindo uma solidez defensiva e ofensiva que mais ninguém tinha conseguido alcançar. Aproveitou para apresentar como principais atributos o à-vontade a avançar, um pé esquerdo rápido e evoluído e a determinação própria dos jogadores formados no Bessa. Acabou por ser traído pela sua fragilidade física e lesionou-se antes que pudesse confirmar os indicadores positivos, mas pelo menos saiu desta época com outro estatuto dentro do plantel.
Há alguns anos Jaime Pacheco justificava o mau futebol produzido pelo seu Boavista com uma frase que na altura até fazia sentido: "Toco bombo porque não tenho violinos". Depois passou pelo Guimarães, equipa que dispunha de alguns dos melhores tecnicistas a actuar em Portugal, e lançou as bases da despromoção vitoriana. Regressou ao Boavista ainda no inicio desta época e dispôs das entusiasmantes contratações de Zairi, apelidado de "Cristiano Ronaldo Marroquino"; e de Ricardo Sousa, conceituado médio ofensivo que já contava com uma passagem de sucesso pelo Bessa. Ambos os craques fracassaram: Zairi nunca foi opção (que se saiba não tem vocação para bombo) e acabou por sair, enquanto Ricardo Sousa, sem fulgor físico e sem nunca demonstrar o mesmo rendimento que o levou à ribalta, acabou por ser preterido pela classe(?) de Essame.